Estouro da boiada por Rui Barbosa

Rui Barbosa

O estouro da boiada

Já vistes explicar o “estouro da boiada?”

Vai o gado sua estrada, mansamente, rota segura e limpa, chã e larga, batida e tranquila, ao tom monótono dos “eias” dos vaqueiros. Caem as patas ao chão em bulha compassada. Na vaga doçura dos olhos dilatados transluz a inconsciente resignação das alimárias, escilantes as cabeças, pendente a magrém dos perigalhos, as aspas no ar, em silva rasteira, por sobre o dorso da manada.

Dir-se-ia a paciência em marcha, abstrata de si mesma, ao tintinar dos chocalhos, em pachorrenta andadura, espertada automaticamente pela vara dos boiadeiros. Eis senão quando, não se atina por quê, a um incidente mínimo — um bicho inofensivo que passa a fugir, o grito de um pássaro na capoeira, o estalido de uma rama no arvoredo — se sobressalta uma das reses, abala, desfecha a correr, e, após ela, se arremessa, em doida arrancada, atropeladamente, o gato todo. Nada mais o reprime. Nem brados, nem aguilhadas o detêm, nem tropeços, voltas ou barrancos por davante. E lá vai, incessantemente, o pânico em desfilada, como se os demônios o tangessem, léguas e léguas, até que, exausto o alento, esmorece e cessa, afinal, a carreira, como começou, pela cessação do seu impulso.

Eis o estouro da boiada.

Como citar
BARBOSA, Rui. O estouro da boiada. In: LAGES, Antônio (ed.). Florilégio nacional de autores brasileiros e portugueses. 2. ed. aum. São Paulo: Salesiana, s.d. p. 43., t. 1. (Salesiana; Didática, 3). Reprod. de Conferência realizada em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 17 de fevereiro de 1910. In: EUCLIDESITE. Artigos. São Paulo, 2019. Disponível em: https://euclidesite.com.br. Acesso em: [data]. Ortografia atualizada.