Não receberei esse prêmio

Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas

Gato Félix. Ilustração: Luiz Carlos Capellano

Foi numa noite de muitas homenagens. Todos os participantes foram agraciados com medalhas, ou placas.

Havia entre eles uma jovem que participava pela primeira vez e insistia com os organizadores:

– É a primeira vez que venho aqui, nunca ouvi falar desse homem antes. Não é justo receber tal homenagem…

Sincera ela, não acham? Mas não lhe deram ouvidos, também recebeu a homenagem, com seu nome gravado e tudo.

Claro que esse caso era uma exceção, porque a grande maioria fazia jus a tal homenagem. Era o reconhecimento de anos de trabalho e dedicação.

Um dos homenageados, pessoa de importância do cenário da pesquisa batizou aquela noite como “a noite da desova de homenagens”.

Entretanto quem roubou a cena não foi a organização do evento, a jovem, ou o homem que batizara aquela noite, mas outro homenageado, o amigo de Euclides, aquele que um dia foi chamado de “Gato Félix, o herói”.

Verdadeiro D. Quixote, mas nem Cervantes em toda sua magnitude podia pensar em atitudes tão quixotescas como as protagonizadas pelo “Gato Félix”.

Cada um, referindo-se ao homenageado era incumbido de chamar e entregar a homenagem ao próximo e assim, formando elos, era construído um círculo cabalístico de homenagens.

Num clima místico de harmonia, de alegria, sem comparações, tudo corria de forma perfeita, até que pintou o contraste e o confronto. Uma das poucas mulheres que podem ser chamadas de “lady” nesse país, foi homenageada e coube a ela a nada fácil tarefa de homenagear o “Gato Félix”.

Uma mulher invejável que, por onde passava chamava a atenção, não pela beleza e juventude, qualidades que se esvaem com o tempo, mas pela beleza de sua alma e elegância de seus gestos. Mulher merecedora de um título de nobreza, não adquirido pela força de um casamento, ou por hereditariedade, mas pela nobreza de seu caráter.

Essa mulher tão admirada pelos homens e invejada pelas mulheres iniciou sua fala, não discurso, porque discurso era para os prepotentes que sempre pensam e falam: – “Discursarei e sei que agradarei”, pessoas como ela apenas falam…

Enaltecendo as qualidades de seu homenageado e os incontáveis trabalhos de divulgação da obra euclidiana que “Gato Félix” tinha e, isso é indiscutível, ela terminou por chamá-lo para receber sua distinção e foi aí que a “lady” foi transformada em plebeia.

Ao ser chamado pelo nome, diante de toda a plateia de homenageados e dos demais convidados, num salto e aos gritos, quebrando toda a cadeia harmoniosamente construída por falas mansas e humildes agradecimentos, “Gato Félix” contesta a homenagem apontando para aquela que, naquela noite, preferia não ter saído de casa:

– Não receberei esse prêmio, me recuso!

A surpresa tomou conta de todos e foi aos poucos virando constrangimento, com exceção é claro de sua fiel escudeira que o apoiava com a cabeça, como já citei em outra crônica todo Quixote, tem seu Sancho Pança, que nem sempre tem barriga, porém “Gato Félix” insistia aos brados:

– Não receberei esse prêmio, me recuso, ele não é só meu, e blá… blá… blá… blá… blá… blá…blá… blá.

A nossa “lady” já pedindo perdão por ter nascido e murmurava:

– Não faça isso professor, receba seu prêmio, por favor!

E ele insistia:

– Não receberei esse prêmio, blá… blá… blá… blá… blá… blá…blá… blá.

A coisa ia longe e a “lady”, a cada tentativa de argumentação, sim só tentativas, porque não conseguia concluir uma frase sequer, empurrava uma placa para suas mãos, segurava suas mãos como se faz com uma criança e tentava fazê-lo segurar a placa, e nada, até que perdendo a compostura ela conseguiu concluir um pensamento:

– Por favor, então se explique, por que não quer receber essa homenagem?

Agora sim, satisfeito com a oportunidade de falar ele se explicou:

– Só receberei esse prêmio se meus amigos estiverem junto comigo, pois não fiz nada sozinho.

E assim foi chamando um a um de seus amigos, que também já haviam sido homenageados, para, ele mesmo, entregar  a mesma placa que insistia passar de mão em mão.

Nossa “lady” foi saindo  à francesa, deixando em seu lugar os homenageados do “Gato Félix” tão constrangidos como ficou ela há pouco, só porque ele criou uma sessão de homenagens dentro da própria sessão e tudo isso só poderia ter acontecido em uma noite de agosto.

Como citar
SILVA, Rachel Aparecida Bueno da. Não receberei esse prêmio. In: Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas. pref. de Fausto Salvadori Filho. São Paulo: Casa do Novo Autor, 2012. pp. 62-4. E-book. Disponível em: https://euclidesite.com.br/aconteceu-em-agosto. Acesso em: [data]. Reprodução permitida somente para fins educacionais e desde que citada a fonte.