Notas complementares

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Observações sobre a história da geografia do Purus

§ 1º Da foz às cabeceiras

A exemplo da grande maioria dos tributários da margem direita do Amazonas, o Purus parece inteiramente estranho à nossa história. Surge, incidentemente, numa ou noutra referência fugitiva. A frase do padre João Daniel no seu imaginoso “Tesouro Descoberto” resume, quanto a este ponto, todo o saber dos nossos velhos cronistas: “Entre o Madeira e o Javari, em distância de mais de duzentas léguas, não há povoação alguma, nem de branco, nem de tapuias mansos, ou missões.”

Entretanto, este abandono figura-se-nos devido menos às condições reais, que às lacunas lamentáveis das nossas tradições. Aos nossos antigos cronistas faltou sempre uma visão superior, de conjunto, permitindo-lhes abranger outras relações além da marcha linear dos roteiros que seguiam, ou dos objetivos definidos que buscavam. E a este propósito poderíamos citar numerosíssimos exemplos, que poriam de manifesto os aspectos particularíssimos em que se fracionam, desunidos, os fastos amazônicos, quer despontem nos dados rigidamente positivos dos astrônomos das demarcações reais, quer das narrativas ingênuas dos missionários, uns e outros adstritos aos regimentos que os norteavam.

O próprio Alexandre Rodrigues Ferreira, o maior polígrafo dos nossos tempos coloniais, em sua “Viagem Filosófica” tacanheou um belo espírito em desvaliosas minúcias e raro lançou um olhar para fora das instruções que o manietavam. E como estas, em geral, impunham aos exploradores o caminho pelo eixo da grande artéria fluvial, apenas com as variantes do rio Negro ou do rio Branco, por ali ficaram também, na sua grande maioria, os narradores, alheios aos fatos ocorridos noutros pontos que, embora de menor monta, talvez contribuíssem bastante para uma urdidura mais firme de sucessos que ainda hoje mal se definem, parcelados e discordes.

Como quer que seja, traçando-se uma linha irregular das serras setentrionais da Amazônia para o ocidente, a buscar numa inflexão para o sul, as cabeceiras do Napo, e descendo por este e pelo Amazonas até ao Pará, tem-se delimitado quase todo o cenário dos fastos amazônicos.

Para o sul — excluindo-se o Madeira, historicamente ligado a Mato Grosso, feito a mais arrojada diretriz da expansão paulista — ficava o deserto, waste of waters, como ainda escrevia em 1877 William Hadfield, copiando, num lamentável exagero, as velhas fantasias que há muito imprimiam naquelas paragens uma feição misteriosa e estranha.

O Purus, sobretudo, foi desde o começo vitimado pelos antigos cronistas. Entrou pela primeira vez na história com um traçado maravilhoso e singularíssimo.

Realmente, todos os fatos o apontam como sendo aquele surpreendente “Rio dos Gigantes”, a que se refere o padre Cristóbal de Acuña [ 1 ] “…um famoso rio, que os índios chamam Cuchiguara. [ 2 ] É navegável ainda que em partes com algumas pedras; tem muito pescado, grande quantidade de tartarugas, abundância de maíz [ 3 ] e mandioca e tudo o necessário para facilitar a sua entrada.”

Refere-se depois aos que o povoam, e cita, entre as numerosas tribos, a dos curús-curús, corruptela evidente de purus-purus, e a dos curiquerês

“…gigantes de dezesseis palmos de altura e mui valentes e andam nus; trazem grandes pateras de ouro nas orelhas e narizes e para chegar a seus povos são necessários dous meses contínuos de caminho desde a boca do Cuchiguara.”

Lançada neste rumo a geografia mitológica do Purus, não maravilha que pouco tempo depois um cartógrafo de excepcional responsabilidade,  Guillaume Delisle ― 1º geógrafo da Academia Real de Ciências de Paris ― ao resumir, em 1703, as noções sobre o Brasil desse ao grande rio tão caprichoso desenho. A sua carta mostra-nos o Purus, sob um outro nome, “R. des Omopalens”, estirando-se no rumo vivo do sul até à latitude de 18º, onde se esgalha em nascentes que vão além de La Paz. E nessas origens uma ligeira nota explicativa acerca de novos seres singulares que as povoam:

“Mutuanis, que l’on dit être des geans riches en or, habitants à 2 mois de chemin de l’embouchure de la Rivière.”

Persistia, como se vê, a novela do crédulo cronista do capitão-mor Pedro Teixeira.

Entretanto estes deslizes nada mais revelam além do propender para o maravilhoso, próprio daqueles tempos. O mesmo Padre João Daniel, no mesmo livro de onde extratamos a frase a princípio citada, dá acerca do Purus uma indicação tão justa, que elimina a conjectura de ser ele de todo desconhecido no século XVIII:

“É o rio Purus tão grande, que tem para cima de 30 dias de boa navegação, porque não tem as trabalhosas catadupas dos demais…”

Aí estão dous elementos, a extensão e a natureza geral do leito, sugerindo a existência de explorações ou antigos esforços, aos quais talvez houvesse faltado um historiador.

Também os sugere a carta de Antonio Pires da Silva Pontes Leme, astrônomo das reais demarcações. [ 4 ] Contemplando-a, notam-se as embocaduras do Purus com a disposição que hoje têm e, embora uma delas, a de Paratary, se alongue, destacada, como se fosse um outro rio, vê-se que o rio principal se deriva até à latitude de 6°30′ com um traçado muito próximo ao verdadeiro, perdendo o rumo do sul, que até então lhe davam, à ventura, os cartógrafos, e descambando para S.O., paralelamente ao Madeira.

Ainda se observa no mesmo mapa um largo Paraná-mirim (lat. 5°40’) misturando através de um tributário, rio Capana, as águas do Madeira e do Purus. Ora, aquela coordenada coincide quase com a da foz do Paraná-pixuna, e, apesar de não existir a comunicação referida, esta identidade de posições é mais um indício da existência de alguns dados superiores às vagas informações dos selvagens.

Mais recentemente Aires do Casal, na sua “Corografia Brasílica” (1817), embora incidisse num erro que viria até ao nosso tempo, apresenta, acerca das nascentes, dúvidas que o colocam, como geógrafo, na vanguarda de outros mais modernos.

“…que esses rios (o Tefé e o Purus) não descem das serras do Peru, onde alguns disseram que eles principiavam, prova-se com a existência da comunicação do Ucaiale com o Mamoré pelo rio da Exaltação e lago Roguagoalo; mas, se eles saem desses lagos, como outros querem, ou se tem as suas origens mais ao setentrião, é o que não podemos asseverar” [ 5 ]

O lago Roguagoalo foi por muito tempo a inexaurível matriz de numerosos rios, cujas nascentes demoram na montaña boliviana entre os paralelos de 10° e 15°.

Assim é que ainda em 1852 o capitão-tenente Amazonas, referindo-se às origens do grande rio e considerando “prejudicada a pretensão de serem nas serras de Cuzco pela da comunicação do Ucaiale com o Mamoré por meio do rio da Exaltação”, inclina-se aos que julgam ser o Purus um desaguadouro do precipitado lago. [ 6 ]

O professor James Orton, em 1868, substituiu este erro por um outro, maior, mais surpreendente entre todos: presumiu ser o Purus o lendário Amaru-Maiú ou “Rio das Serpentes”, dos Incas; e traçou-o a partir dos Andes fertilizando o vale romântico de Paucar-Tambo antes de derivar pelos terrenos complanados da Amazônia. [ 7 ]

Gibbon e Hencke consideravam-no um prolongamento de Madre de Dios, contravindo neste ponto à cinca inexplicável de Paz Soldan, que em 1862, na sua Geografia do Peru, e no Atlas respectivo, apresenta o Madre de Dios e o Inambari como afluentes do Marañon.

Diante de juízos tão contrapostos, compreende-se que a “Royal Geographical Society” de Londres comissionasse, em 1864, um de seus membros, William Chandless, para resolver o controvertido assunto, ou, como se usou dizer por muito tempo ― o problema do Madre de Dios e do Purus.

Mas antes disto no Brasil firmara-se, sistematicamente, o reconhecimento do último.

De fato, à parte as viagens infrutíferas de João Cametá (1847?) até ao Ituxi, e de Serafim da Silva Salgado (1852), até além do Iaco, abriu-se em 1861, com Manoel Urbano da Encarnação, uma quadra fecunda de trabalhos notáveis.

Manoel Urbano, um cafuz destemeroso e sagaz, tinha, a par do ânimo resoluto e sobranceiro aos perigos, uma vivacidade intelectual, “a great natural intelligence”, no dizer de Chandless, que muito contribuiu para o ascendente que teve sobre todas as tribos ribeirinhas, e para que se abrisse naquelas bandas um dos melhores capítulos da nossa história geográfica.

Os serviços que prestou foram extraordinários, e merecem outras páginas além das rápidas linhas desta resenha.

Ob[e]diente às instruções do Governo provincial do Amazonas, a primeira de suas dilatadas viagens levava o objetivo de verificar a existência, há longo tempo propalada, de uma comunicação entre o Purus e o Madeira, a montante da zona encachoeirada deste último.

Manoel Urbano, efetuando-a, traçou quase todo o itinerário das explorações ulteriores.

Partindo de Manaus a 27 de janeiro daquele ano, chegou, depois de 55 dias de viagem morosa, em canoas, à boca do Ituxi, de onde alcançou 32 dias depois a do Acre (Aquirí). Penetrou por este e subiu-o durante vinte dias de navegação esforçada, estacando apenas quando o extremo abaixamento das águas anulou todos os esforços dos dedicados pamaris, que lhe arrastavam a canoa. Volveu então, águas abaixo, ao rio principal; e durante quarenta dias percorreu-o ao arrepio da corrente, até além do Rixala (quebrada S. Juan, dos peruanos), chegando perto da foz do Curumahá (Curanja), acerca de 2800 quilômetros da do Purus, distância que até então não se percorrera.

Como efeito imediato desta expedição firmou-se definitivamente a ausência da citada comunicação, naqueles pontos, e tornaram-se conhecidos novos tributários entre o Acre e o Curinahá (hoje Santa Rosa). Além disto, descobriu-se um igarapé conduzindo a um varadouro para o Juruá (por intermédio do Jurupari e do Tarahuacá) ― e como a travessia se operara acima das cabeceiras do Tefé e do Coari, esta simples circunstância bastou a corrigir-se os cursos destes últimos, até então exageradamente avaliados.

Manoel Urbano dirigiu, depois, as suas pesquisas a outros rumos, sempre em procura da comunicação precitada. Entrou pelo Mucuim e numa viagem de vinte e poucos dias, vingando sucessivas cachoeiras, e captando a confiança dos pammanás esquivos, alcançou a margem esquerda do Madeira, no salto do Teotonio, após um “varadouro” de dez léguas. Volvendo ao Purus, seguiu em demanda do Ituxi e investiu-o até ao trecho encachoeirado, além da embocadura do Punicici.

Efetuadas por um homem inculto, apenas aparelhado de um tino admirável, essas viagens, entretanto, forneceram os primeiros dados seguros a respeito do Purus e de três dos seus maiores afluentes, assim como das tribos que os povoavam. As mesmas distâncias itinerárias entre os vários pontos e as direções gerais dos vários segmentos do rio surpreenderam pouco depois a William Chandless [ 8 ] e as notícias relativas à disposição geral das terras, número e caracteres das tribos, bem poucas alterações ulteriormente sofreram.

É natural que elas influíssem por tanta maneira no espírito do Governo, que este resolvesse persistir num esforço tão brilhantemente iniciado. [ 9 ]. Foi o que sucedeu, de fato, a 13 de fevereiro de 1862, data das instruções entregues pelo Dr. Carneiro da Cunha, presidente do Amazonas, ao engenheiro J. M. da Silva Coutinho, encarregado de um reconhecimento do Alto Purus e dos seus afluentes mais importantes. A missão era complexa. Além do levantamento hidrográfico, tinha aquele profissional de atender à estrutura geológica do vale, à flora, às propriedades dos terrenos mais afeiçoados às culturas; ao número e caracteres das tribos e meios mais eficazes para vinculá-las à civilização; ― e, como remate, à tentativa de uma passagem ao Juruá, pelo varadouro descoberto por Manoel Urbano.

Este último acompanhou aquele profissional, assim como o botânico alemão Wallis, o primeiro representante da ciência européia que penetrou no Purus.

O engenheiro Silva Coutinho enfeixou as suas observações num pormenorizado relatório, datado de 1º de março de 1863, onde, além de um estudo geral do rio, se descriminam os afluentes, lagos, ilhas, barreiras, casas e rochedos, que se encontram desde a sua foz até ao Rixala (S. Juan), além de ampla notícia dos índios, produção, natureza dos terrenos, etc.

Este trabalho, em que a colaboração de Manoel Urbano se manifesta claramente, é por muitos títulos notável, sendo para lamentar que as circunstâncias não permitissem a de Wallis.

Silva Coutinho, além dos dados interessantes que apresentou, teve um largo descortino do futuro, naquelas paragens. Apesar de ter subido apenas até Huitanahan ― de onde voltou o Pirajá que o conduzira, por falta de víveres ― desenhou com eloquente simplicidade a grandeza das paragens ignoradas:

“A importância do Purus é muito grande para que se abandone a ideia de seu reconhecimento. Quando na Europa com tanto interesse se discute a questão do Madre de Dios, não devemos nós, particularmente interessados na questão, cruzar os braços indiferentemente. A região mais rica do Peru e da Bolívia só pode comunicar com o Amazonas por meio do Purus e do Hiuruá (Juruá) rios que não têm cachoeiras e que oferecem fácil comunicação em quase todo o curso. ” [ 10 ]

Ora, William Chandless veio, um ano depois (1864), precisamente para resolver essa “questão do Madre de Dios” ― um dos aspectos do velho problema de ligação das bacias do Amazonas e do Prata ― e posto que a deixasse sem um remate definitivo, realizou a mais séria entre todas as explorações do grande rio. Pela primeira vez fixaram-se em coordenadas astronômicas os seus pontos principais ― e quando muitas outras indagações ele não fizesse, aquela simples circunstância bastava a dar-lhe um dos primeiros lugares não já entre os cientistas que estudaram a Amazônia senão entre todos os que têm perlustrado o nosso país.

Dificilmente se encontra um outro tão pertinaz, tão consciencioso, tão lúcido e tão modesto.

A sua viagem penosíssima, de oito meses, em que teve como únicos auxiliares os índios bolivianos e os apurinãs que lhe impeliam a canoa, é talvez a mais tranquila das grandes expedições geográficas. Não tem um incidente, um episódio emocionante, ou um quadro surpreendente, dos que sempre aparecem nessas investidas com o desconhecido. É assombrosa e interessante apenas pelos grandes resultados que teve, desdobrados com raro rigorismo das mais simples leituras barométricas às mais sérias determinações de coordenadas.

Sob este último aspecto, principalmente, são o melhor modelo dos trabalhos geográficos em nossa terra.

Avalia-o quem quer que tenha subido um dos rios amazônicos, encarregado de idêntica tarefa. Realmente, bem poucas regiões se lhes emparelham no criar obstáculos a um observador: a umidade extrema imprópria, geralmente os céus, mesmo quando o tempo é constante e claro, exatamente nas horas mais aptas às observações de alturas, porque os melhores dias começam quase sempre densamente bruscos, até às 8h a. m., tornando indecisos os contatos do sol para as determinações horárias, e encerram-se num misto de treva e neblinas, através das quais mal palejam as estrelas; nas cabeceiras, a estreiteza dos rios, afogados entre as grandes árvores, reduz o campo para a escolha dos astros, trancando o firmamento até 45° de altura, o que corresponde a anular a maioria das situações mais propícias aos trabalhos; os paus que da parte média para as nascentes atravancam [o] leito, determinando continuados choques, determinam continuados “saltos”, tão prejudiciais às marchas dos cronômetros, já prejudicadas pelos intermitentes destes últimos por terra, ao longo das barrancas, nas passagens dos rápidos e das cachoeiras; as sinuosidades caprichosas dos traçados exigem uma atenção permanente e exaustiva na leitura dos rumos, que mudam a todo o instante, e acumula-os, numerosíssimos, nas cadernetas, aumentando todas as causas de erro no desenho ulterior; as anomalias barométricas, ainda hoje inexplicáveis, não só tornam duvidosas todas as altitudes, senão diminuem a importância de uma das correções dos cálculos de alturas; e, ao cabo, como se não bastassem tantos empecilhos, falta ao observador (obrigado não raro a empanar as vistas com um véu) a serenidade indispensável que lhe tiram, na melhor ocasião, a sucção dos piuns durante o dia, as ferroadas dos carapanãs durante a noite e os cáusticos das mantas blancas e meruins invisíveis, torturas que às vezes tem de suportar, estoicamente imóvel, para não perder no momento preciso a passagem de uma estrela ou um contato do sol.

William Chandless dominou isolado (nem tinha quem lhe lesse o cronômetro) estas dificuldades.

Balanceando bem os erros inevitáveis que se somariam, cada vez maiores, no cálculo de suas longitudes por meio do transporte do tempo e em condições tão desvantajosas, não só os atenuou por meio de longitudes absolutas de lugares longamente intervalados, como os compensou por meio de observações duplas, nos mesmos pontos, na subida e na baixada.

Deste modo retificava o levantamento hidrográfico, à medida que o efetuava, e tornava solidários os trabalhos topográfico e astronômico numa urdidura rigorosa.

Compreende-se que a sua carta tivesse, depois, bem poucas mo[di]ficações e se constituísse molde único aos numerosos geógrafos-copistas que a aproveitaram, ajeitaram e não raro deturparam.

Infelizmente esta exploração notável não teve o desfecho que merecia. Tendo estudado com segurança quase todo o Purus e o Aquirí [ou rio Acre], Chandless em virtude de um ligeiro desvio de sua rota, nas cabeceiras do primeiro, não pôde assegurar, de modo decisivo o divortium entre elas e as dos mananciais do Madre de Dios e do Ucaiale.

Deduziu-o apenas. Não apresentou o fato positivo que só lhe daria a observação direta.

Assim sobre as nascentes diz: “From the small size of both branches (Cujar e Curiúja) at the farsthest points I reached (10°36’44” lat. 72°09’00” W.G) e (10°52’52” lat. 72°17’00” long. W.G) and their rapid diminuition, it is pretty clear that they cannot come from any very great distance; in my opinion little, if at all, to S of 11° lat.; certainly not from the cordillera”.

Esclarece-o, quanto a este último ponto, o não ter encontrado, ali, nenhum espécime de granito ou de qualquer outra rocha plutônica.

Conclui: …“then the Madre de Dios is certainly not the sourse of the Purus.”

E logo depois revelando certa inseguridade num juízo definitivo sobre o assunto:

“Certainly the simplest solution of the problem would be a descent of the Madre de Dios from the Cordillera…”

Estes extratos são bem eloquentes, mas não invalidam, ou diminuem os esforços do notável explorador, traído nos seus últimos passos por uma circunstância de todo em todo fortuita.

Realmente cotejando-se, nas cabeceiras, a carta de W. Chandless e a nossa, põe-se de manifesto que o ilustre geógrafo ao alcançar à última bifurcação da South Fork (Cujar) (72°20’41” long. W. G. 10°51’16” L. S.) prosseguiu, infletindo para a direita, pelo rio de maior volume e que prolonga melhor o Cujar, deixando à esquerda, desatado no quadrante de S., o Cavaljani, isto é, o caminho que em menos de oito dias o levaria simultaneamente aos vales do Ucaiale e do Madre de Dios, depois de transmontar o diminuto cerro por onde derivam da nossa banda o ribeirão do Pucani, último galho meridional do Purus, e do outro a “quebrada” Machete, um dos últimos galhos setentrionais do Ucaiale. [ 11 ]

O desenlace de seus esforços seria então surpreendedor, porque ao mesmo passo e num só dia chegaria a muitas conclusões valiosíssimas:

  1. a) mostraria a independência da bacia do Purus, e o alongamento máximo das suas origens para o sul, sem atingir o paralelo de 11°;
  2. b) veria que as nascentes do Madre de Dios e do Ucaiale, naquelas bandas, divergentes a partir do estreito istmo de Fitz-Carral, justificam com tal proximidade, em parte, os velhos erros que sobre elas durante tantos anos perduraram;
  3. c) comparando-as com as do Purus, que ali apenas se separam por uma ondulação de menos de dous quilômetros, de varadouro, não só justificaria os que tantas vezes confundiram o grande afluente amazônico com o Madre de Dios, como revelaria o fato geográfico, absolutamente sem par, desse irradiar das origens de três grandes artérias fluviais a partir de uma reduzidíssima área, fora da sublevação andina, de altura relativa inapreciável, e não tendo talvez sobre o nível dos mares a diferença de quinhentos metros.

Apesar disto a sua exploração é ainda hoje a mais séria de quantas houve no Purus. As que se lhe sucederam em nada modificaram os seus resultados gerais.

Citemos apenas as grandes explorações por terra (1870-1872) do coronel Antonio Rodrigues Pereira Labre e engenheiro Alexandre Haag, para o traçado de uma estrada entre o porto de Lábrea e o de Florida, no Beni; a viagem, meramente descritiva, de Barrington Brown and William Lidstone (1873), que chegaram apenas até à barreira de Huitanaã [ 12 ]; e a da comissão mista brasileiro-boliviana, em 1897, para a implantação dos marcos da linha Beni–Javari.

Em resumo: a geografia do Purus durante longos anos ficou inscrita nas linhas traçadas por William Chandless em 1867. Depois, o que é inverossímil, retrogradou. Forrando-nos a uma empresa malévola, não explanaremos um caso originalíssimo de cartografia: a planta do notável viajante, copiada de todos os modos, calcada e recalcada por sem número de fabricantes de mapas, acabou de todo falseada. A geografia do Purus volvia, regressiva, aos tempos anteriores a Manoel Urbano. À medida que surgiam as cartas ― dos que nunca se afoitaram com o grande rio ― embaralhavam-se novas linhas, apagavam-se outras, retorcia-se caprichosamente o leito principal, esticava-se o seu traçado até 12° ou mais, removiam-se afluentes de uma para outra margem, alteravam-se nomes, trancavam-se embocaduras… [ 13 ]

Não exemplifiquemos. Sem exagero pode-se dizer que o Purus, com tanta lucidez definido por William Chandless, ia a pouco e pouco voltando a ser o fabuloso Cuchiguara velado nos absurdos que aprouve emprestar-lhe a fantasia maravilhosa dos cronistas e cartógrafos que se sucederam de Cristóbal de Acuña e Guillaume Delisle.

Depois de W. Chandless, o único reconhecimento que se fez no ramo principal do Purus até às cabeceiras foi o que motivou o presente trabalho, o da Comissão Mista brasileiro-peruana, de reconhecimento, sendo os seus resultados em grande cópia um complemento dos esforços daquele explorador.

§ 2º Nas cabeceiras

Nas páginas anteriores vimos as dúvidas que sempre relativamente às origens do Purus a par da grande confusão dos geógrafos indicando-o como um prolongamento do Madre de Dios; e notamos, de relance, na estreita vizinhança das cabeceiras daqueles rios uma das causas dos erros perpetrados.

De feito, os últimos galhos meridionais do Purus (Cujar e Curiúja), orientais do Urubamba (Sepahua e Mishaua), e setentrionais do Madre de Dios (Caspajali e Caterjali) podem ser ligados por um segmento de meridiano menor de 20’.

É natural que os esclarecimentos relativos às suas respectivas origens se travassem, vinculados, completando-se reciprocamente.

Foi o que aconteceu. As explorações realizadas no Madre de Dios foram em pouco tempo completadas pelas do Purus.

Deixando de lado a notável expedição do inca Iupangui, descendo com dez mil guerreiros o fabuloso Amarú-Maiú, desde o Tono até a província de Moxos — pode-se datar de 1860-61 a primeira exploração regular do Madre de Dios, precisamente no mesmo ano em que se iniciou a do Purus.

Na mesma ocasião em que Manoel Urbano punha ombros às suas grandes tarefas, Faustino Maldonado partia de Nauta, varava o vale de Paucartambo, perlongava a margem esquerda do Tono, até à foz do Pitama, que atravessou indo parar na embocadura do Pinipini.

Aí, apenas auxiliado por alguns índios shipibo-conibos, construiu uma jangada e veio ao som das águas até a confluência do Beni, de onde, pelo Mamoré, chegou ao Madeira, continuando a descida.

Infelizmente a arrojada empresa teve lastimável desfecho no “Caldeirão do Inferno”, onde o brilhante pioneiro naufragou, perecendo com a maioria dos que o acompanhavam. Mas os resultados obtidos foram admiráveis — e nem se compreende como por tanto tempo ainda se confundisse o Madre de Dios com o Purus, e fosse exatamente o maior geógrafo peruano o maior propagador de tão exagerado absurdo.

É que naquelas bandas não houvera a continuidade de esforços que existiu entre nós, mal podendo citar-se, em vinte anos de interregno a exploração malograda do Coronel Latorre, sucumbindo aos assaltos dos chunchos quando ia ainda pouco distante de Cuzco (1873).

Em 1880-81, o Dr. Edwin Heath [ 14 ] completou os esforços de Maldonado numa penosa viagem de ida e volta, de Reyes à confluência Beni–Madre de Dios.

Tinha-se, afinal, um juízo seguro acerca dos dous grandes rios que por tão largo tempo haviam desafiado a argúcia dos cartógrafos.

As investigações continuaram. Em 1890, um caucheiro peruano, Carlos Fiscarrald [ 15 ], vencendo extraordinárias dificuldades descobriu o “varadouro” do Mishaua (último dos galhos orientais do Urubamba) ao Caspajali (último dos afluentes setentrionais do Madre de Dios) e arrastando por ali a lancha Contamana, em que subira o primeiro, passou, graças aos robustos piros que o acompanhavam, para o segundo. Passara, assim, das águas do Ucaiale para as do Madre de Dios; e o Istmo Fiscarrald, desvendado, mostrava a estreita faixa de terras que separava as duas imensas bacias.

Deste modo em 1891 estavam francamente conhecidas as origens e direções gerais dos rios que demoram naquelas bandas.

Restava, ao norte, o Purus.

Uma versão peruana muito opinável indica um loretano, Leopoldo Collazos, como o descobridor da passagem entre o Purus e o Ucaiale. Partindo, em meados de 1899 de um puesto no Urubamba, o explorador, encalçado de 30 “infiéles”, navegou pelo Sepahua acima; enfiou pelos seus últimos tributários que se esgalham até a “quebrada” Machete; e foi surgir, em fins de agosto, transmontada uma pequena ondulação de terreno, no Pucani e no Cavaljani, nas cabeceiras do Purus.

Outros, porém, com mais visos de verdade, afirmam que esta glória cabe toda a um digno irmão de Fiscarrald, D. Delfim Fiscarrald, que se estabelecera em 1892 no Urubamba, associado a um brasileiro, o tenente-coronel José Cardoso da Rosa.

Como quer que seja, em 1900 ultimara-se a grande questão geográfica: os três grandes rios eram de todo independentes, mas tinham algumas de suas origens tão próximas que a passagem de umas para outras podia efetuar-se conduzindo-se não já as ubás aligeiradas dos selvagens senão as mesmas lanchas dos exploradores.

§ 3º Os “varadouros”

Foi o que em grande parte verificou a Comissão Mista, brasileiro-peruana, de reconhecimento do Alto Purus, em 1905. No relatório que motivou estas notas complementares sumariam-se as dificuldades que ela debelou, sobretudo a partir da Forquilha do Purus, no dia 24 de julho de 1905.

Previam-se, de fato, todos os obstáculos, não só pelo adiantado da vazante como pelo reduzido das águas, dividindo-se o grande rio quase igualmente nos seus dous últimos tributários.

Em qualquer deles a corrente derivava ora muito rasa sobre dilatados bancos de areia entre os quais mal serpeavam diminutos canais de dous pés, no máximo, de profundidade; ora tumultuariamente em rápidos e pequenas cachoeiras mercê das quais o rio Cujar vence em 50 milhas de curso uma queda total de 154 metros, da confluência do Cavaljani à Forquilha.

Deste modo a subida realizou-se em condições que se extremavam — passando dos longos estirões quase estagnados para o torvelinho dos “rápidos” o que acarretava a variação dos meios para realizá-la. Nos primeiros, os expedicionários, abandonando as canoas, arrastavam-nas a pulso sendo por vezes forçados ao emprego da alavanca, como um supletivo dos varejões e dos remos, o que por si só caracteriza os empecilhos encontrados. Nos segundos, o esforço, embora maior, era mais pronto e menos exaustivo. Adotavam-se sirgas e cabos de segurança para as corredeiras comuns; e nas três cachoeiras maiores a varação das canoas, vazias de toda a carga, sobre as pedras, expostas ao longo das barrancas marginais.

Transpondo o primeiro rápido, nas cercanias da Forquilha, sucedem-se, pouco intervalados, estes degraus em que o Cujar vence uma diferença de nível relativamente exagerada.

A natureza do terreno muda e bem que não se descubram traços de formações primitivas tudo induz a crer que se vai sobre camadas muito antigas que as da parte inferior da bacia, e talvez caracterizadas por ações metamórficas intensíssimas. As pedras que repontam em toda a parte, ora desmanteladas, nos “rápidos”, ora contínuas, formando o leito do rio, são evidentemente sedimentárias. Mas nos dous aspectos invariáveis, que patenteiam, ora finamente granuladas, ora em grosseiros conglomerados de uma dureza extraordinária, recordam verdadeiros quartzitos e granitos. A aliança ou separação delas constitui as várias formas das quedas, que às vezes tombam, abruptas, num salto único, em pequenos e inúmeros degraus, ou então, reduzidas a fortes itaipavas, derivando vertiginosamente em planos clivosos eriçados de pontas vivas no atravancamento dos blocos desmantelados. Assim se formam, da Forquilha à foz do Cavaljani, e desta à do Pucani, 88 corredeiras [ 16 ] entre as quais avulta a queda mais alta de todas, com 2,20m, constituindo verdadeira hurmana, consoante a denominação local.

O rio represado, ali, por um afloramento de resistente conglomerado, deve transpô-lo nas enchentes em uma queda imponente. Mas na vazante deriva por uma depressão, à direita, caindo em um salto de 1,50m, cuja violência se agrava na calha que o constringe. A travessia realiza-se, arrastando-se as embarcações em seco, pela esquerda, sobre a parte desvendada, cheia de fraguedos, estalando em fendas e crivada de pequenos boqueirões.

Dominado este passo, começa-se a observar a ação paradoxalmente favorável que tem aquelas barreiras para a subida do rio, na vazante. Realmente, são verdadeiras eclusas, que se escalonam em intervalos regulares e sem as quais, a corrente derivaria impraticável, sobre os baixios rasos nos longos “estirões” quase inteiramente esgotados.

Foi em grande parte mercê desta disposição que os expedicionários chegaram no dia 30 de julho à foz do Cavaljani.

Estavam nas cabeceiras do Purus.

O rio então expõe pela última vez a sua dicotomia interessante. Reparte-se em dous galhos quase iguais, um para o sul, o Cavaljani, outro para o norte, que lhe conserva o nome. Foi por este que prosseguiu W. Chandless, estacando poucas milhas adiante.

A comissão mista prosseguiu pelo outro e, suplantando dificuldades que dia a dia se tornavam maiores, alcançou no dia 3 de agosto a confluência do Pucani, a origem mais meridional do Purus.

O pequeno ribeirão tem a feição característica de todos os cursos de água de cabeceiras. É uma torrente. Desce, tortuoso, com 2m de largura média, de SO para NE, procurando a pouco e pouco o rumo de E em que aflui no Cavaljani. As árvores trançam-se-lhe por cima dando-lhe por vezes, em largos tratos, a obscuridade de um túnel, e a travessia faz-se obrigatoriamente acompanhando-lhe o eixo, por dentro d’água, rasa de 0,20m, exceto em quatro ou cinco pontos em que ele de chofre se aprofunda, ganglionando em poços invadeáveis, que se evitam por meio de atalhos laterais pelo alto das barrancas.

As águas muito límpidas, diminuem sensivelmente reduzidas a uma descarga máxima de 0,100m³ por segundo, capaz de se conter no entalhe de um vertedor regular, tão reduzido ali se acha aquele remotíssimo prolongamento do Purus.

O viajante, subindo-o no rumo aproximado de SO, percebe a sua ascensão lenta. Ao mesmo tempo impressiona-o sensível mudança no aspecto geral da região: as embaúbas, as buchiticas [ 17 ] e as frecheiras tão abundantes poucas milhas a jusante no Cavaljani e no Cujar, rareiam ou desaparecem substituídas em parte por inextricáveis tabocas, de hastes espinescentes e longas, enredadas, dominando em largos trechos toda a vegetação. As pedras, tão numerosas nas corredeiras anteriores, acabam de súbito: compreende-se bem que ali ainda as encobrem as camadas superpostas de argila compacta que no Cavaljani, no Cujar e no Curiúja, no Purus, foram há muito destruídas pelas erosões, desvendando, no desmantelo de blocos que apontamos, a ossatura mais antiga dos terrenos. Esta transição estrutural é muito viva e induz à conjectura de pisar-se, afinal, uma das margens, ainda intacta, ou menos transmudada pelos agentes exteriores, de uma terra antiga, conservando ainda os contornos dos velhos tempos terciários que a formaram.

Calca-se, de fato, uma argila avermelhada, quase pura e tão consistente que forma a única pequena queda do Pucani (0,50m de alto) resvalando-lhe, sem a degradar, pelas camadas firmes e unidas como se foram de pedra.

Aos lados as barrancas, altas de três a quatro metros, caem, por vezes, a pique como muros, e o pequeno rio coleia entre elas à maneira de um canon estreitíssimo e contorcido. Mas não abandona a sua direção geral até cerca de 2.300 metros da confluência do Cavaljani. Daí para cima o traçado principal a inflectir para o sul, e vai em deflexões insensíveis por espaço de um quilômetro até alcançar de todo aquele rumo. Então, repentinamente, se alarga num último poço um círculo irregular de uns trinta metros de diâmetro, profundo, escavado entre os taludes fortes das encostas consistentes. O ribeirão expande-se daquele modo precisamente quando o explorador o imagina cada vez mais estrangulado entre as barrancas, tendendo cada vez mais a fracionar-se nos últimos manadeiros das nascentes. Figura-se acabar no diminutíssimo lago. E como sobre este se arqueiam os céus desafogados e claros, quem surge da meia penumbra do Pucani tem a impressão de chegar a um ponto culminante. Mas está no sopé de uma montanha, ou melhor de um cerro cujas proporções se exageram de mais para quem ali chega avançando através de 3.200 quilômetros de planura quase invariável.

Na encosta deste cerro destaca-se um recorte de picada, largo de um metro, descendo-a vivamente, sem uma curva, despenhado por um declive de 28°.

É o varadouro.

Extremam-no quatro tambos de paxiúba, que assim se chamam naquelas bandas as palhoças ou papiris da Amazônia, onde se abrigam viajantes e mercadorias. Em torno, acervos de latas vazias, de toda a sorte de conservas, pedaços de ferramentas e trapos esparsos, delatam para logo a escala forçada dos caminhantes, e um tráfego seguido.

O varadouro principia no rumo certo do sul, em ladeira íngreme permitindo que em cinco minutos de subida esforçada se vingue o ponto culminante, — cinco minutos apenas de marcha para alcançar-se o divortium aquarum de dous entre os maiores rios da terra.

Infelizmente o cerrado das árvores, abreviando as vistas, não faculta, daquele ponto, uma observação bem clara do conjunto dos terrenos em volta. Nota-se apenas que aquela serrania inapreciável, com uma altura relativa de 50 metros no máximo, sobranceia todos os lugares próximos para onde descem, o Purus para NE, o Sepahua e o Urubamba para o ocidente e os últimos tributários do Madre de Dios para o levante e para o sudeste.

Dali se prossegue descendo sempre no rumo de sul (compensadas as breves deflexões a SO e SE) para o vale do Sepahua último dos galhos setentrionais do Ucaiale. O chão argiloso e escorregadio denuncia no polido da superfície o constante deslizamento das ubás que sobre ele se arrastam, a pulso, sem nenhum dispositivo a facilitar a varação. À parte o corte de uma ou outra árvore, não se distingue o mínimo preparo ou conservação necessária à passagem de tal importância. Em raros pontos alguns paus roliços transversalmente alinhados em estivamento imperfeito, corrigem a inconsistência do solo; e em seis sulcos de erosão que retalham a vertente, algumas árvores derribadas a esmo servem de pontes, perigosíssimas, requerendo marcha cautelosa e atenta. Toda esta descida, muito mais longa que a ascensão do lado do Pucani, efetua-se sobre três largos socalcos cindidos de ravinas estreitíssimas e fundas. Realiza-se em meia hora, tendo todo o varadouro com as suas pequenas curvas pouco mais de 1.500 metros.

Assim, retificando-se e reduzindo-se ao horizonte esta faixa ondulada de terras, que ali separa tão enormes bacias, vê-se que a sua largura de mui pouco ultrapassa um quilômetro. Escapa às escalas comuns dos mapas geográficos. O Purus e o Ucaiale quase unidos naquele ponto abarcam um quinto da Amazônia e no desmedido trato de continente que parecem ilhar envolvem completamente as grandes bacias do Tefé, Coari, Juruá, Jutai e Javari.

O varadouro termina na quebrada Machete, onde se vê um outro tambo maior, à esquerda dela, sobre uma breve rechã 58, fechada ao fundo por um cerrado tabocal.

A planta que anexamos a estas notas completa-as mostrando o prosseguimento do itinerário que acompanha as quebradas Acha e União, até ao Sepahua, ao Urubamba e ao Ucaiale.

O outro varadouro do Purus é o da Curiúja, em região idêntica à do interior. Quem parte da Forquilha, alcança-o, em qualquer quadra, ao fim de 62 horas de viagem, ou sejam pouco mais de seis dias. Mais longo que o do Cujar, como o revela a planta, a sua travessia é feita pelos caucheiros em duas horas. Alcançam então o Mapuia que descem em três dias até ao Inuja; e num dia e meio por este até à sua confluência no Urubamba.

Na mesma planta indicamos o varadouro que liga o Ucaiale ao Madre de Dios.

Considerando-a, vê-se, que o mesmo viajor, na mesma embarcação, pode hoje, em prazo diminutíssimo, passar das águas do Purus para as do Ucaiale — pelo istmo de Sepahua — e das deste para as do Madre de Dios — pelo istmo de Fiscarrald — justificando-se então, amplamente, todas as divergências e dúvidas, e mesmo os maiores erros, que se agitaram durante tanto tempo a respeito das origens dos três grandes rios.

O povoamento

§ 1º Da foz às cabeceiras

Lendo-se as “notícias da voluntária redução da paz e amizade da feroz nação do gentio mura” nos anos de 1784, 1785 e 1786; e, principalmente, as longas correspondências entre o tenente-coronel primeiro comissário da 4ª Partida, João Batista Mardel, e João Pereira Caldas, acerca da prática com o gentio “que pelo centro e lagos habita desde o Purus até ao Juruá” — evidenciam-se antigos e persistentes esforços para o povoamento daquelas regiões. [ 18 ] Mas fora sobremaneira longo este perquirir de antigos documentos. Baste-nos saber que desde 1787 por efeito de belíssima campanha em que não entraram outras armas além das dádivas mais apetecidas do selvagem, se congraçaram os aborígenes daqueles pontos, inteiramente captados pelas gentes civilizadas. O Purus, sobretudo, graças a sua incomparável riqueza de preciosas especiarias abrira-se desde logo à faina, infelizmente desordenada e primitiva que ainda hoje impera na Amazônia. Revela-o um fato, bastante eloquente na sua mesma extravagância: em 1818 o último governador do Rio Negro, Manoel Joaquim do Paço, trancou-o; proibiu que o sulcassem os pesquisadores de drogas “indo-se-lhe os olhos cegos de sua ambição atrás dos preciosos frutos, porque queria antes ficassem as suas untadas com o copioso do seu produto.” [ 19 ] A Junta Governativa do Pará logo depois revogou a curiosa resolução que é, afinal, muito expressiva no delatar a importância que já naqueles tempos ia assumindo o grande rio.

Infelizmente, durante largos anos as “entradas” que, certo, continuaram pelo Purus acima, não deixaram documentos. Vislumbram em frágeis e discordes reminiscências de seus mais anosos povoadores, que pouca confiança inspiram.

Apenas em 1854 principiaram os primeiros dados seguros a tal respeito com o Relatório do presidente do Amazonas, Conselheiro Herculano Penna, onde há referências à missão do Purus (S. Luís de Gonzaga) confiada a Frei Pedro de Ciariana.

Daquela data em diante o povoamento foi contínuo e tão sensível que em 7 de Setembro de 1858 um outro presidente, Dr. Francisco Furtado, justificou no seu Relatório a necessidade de estabelecer-se a navegação regular naqueles lugares. Crescera, de fato, a população que ainda instável, ou errante em território desconhecido, não facultava um cômputo sequer aproximado, conjecturando-se apenas que não era diminuta pela circunstância de se haver criado em Junho de 1857, próximo a Guajaratuba, uma enfermaria para os atacados de febres perniciosas que grassaram naquelas bandas.

Ora, entre estes primeiros povoadores estava um homem que os próprios antecedentes étnicos aparelhavam a fundar a sociedade nova na paragem recém-desvendada, Manoel Urbano da Encarnação. Já lhe vimos o papel admirável como batedor de desertos. Mas a sua ação como fundador de povoados é maior, sendo ainda hoje tradicionais no Purus o seu atilamento e a sua pertinácia, a par de uma grande inteireza de caráter e uma bondade excepcional.

Foi o mediador entre as gentes novas que buscavam aquele rio e as tribos bravias que lhe ocupavam as margens. E esta simples circunstância eleva-o consideravelmente.

Basta considerar-se que o Purus foi talvez a maior estrada por onde passavam e repassavam, há muitos séculos, as tribos mais remotas dos extremos do continente. Os muras erradios e broncos, que tanto alarmaram o governo colonial, não são autóctones: desceram da Bolívia, pelo Mamoré, e são talvez colaterais dos moxos sucessivamente batidos pelas expedições dos incas e pelas outras tribos do sul do nosso país espavoridas pelos paulistas; os jamamadis parece guardarem ainda hoje, entranhados nas terras e evitando as margens dos rios, a lembrança das antigas bandeiras de resgate que os expeliram do Rio Negro; nos apurinãs Silva Coutinho lobrigou hábitos dos ubaias do Paraguai; e o aspecto e as vestes dos canamaris, como no-los descreve Manoel Urbano, recordam-nos vivamente a envergadura rija e a cusma inconsútil dos campas que vimos nas cabeceiras.

Estas tribos fervilhavam nas duas orlas do Purus.

Os muras, da foz ao Paraná-pixuna, aldeiados em Beruri, no lago Hiapuá, [ 20 ] na Campina e em Arimã, onde desde 1854 os reunira Fr. P. de Ciariana. Da foz do Jacaré a Huitanaã, espalhavam-se os pamaris e juberis, sob o nome geral de puru-purus. Habilíssimos fabricantes de ubás e incomparáveis remadores, viviam exclusivamente da pesca de tartarugas e piraras, de onde lhes provinha a moléstia singular que lhes salpintava a pele de numerosas manchas brancas. Os robustos e bravos apurinãs amalocavam-se do Paciá ao Iaco, em amplos barracões circulares contendo, às vezes, cem pessoas às ordens de um tuxaua. Dali para cima os canamaris e maneteneris, à parte os pamanás e jamamadis, escondidos nas selvas.

Quem hoje sobe o Purus não os vê mais como os viram Silva Coutinho, Chandless e Manoel Urbano. Os apurinãs figuram-se mais numerosos, mas sem os caracteres de outrora; e os puru-purus (pamaris), que nos apareceram, em nada mais relembram aqueles curiosos selvagens, de todo despeados das terras marginais e vivendo em enormes malocas flutuantes, numa permanente viagem, ancorando ao acaso pelas praias e “barreiras”.

É que cederam o lugar a uma imigração intensiva, ou foram absorvidos por ela. Já em 1862 Silva Coutinho, avançando somente até Huitanaã, passara por 14 sítios ou barracas, desde a foz (sítio do Picanço), onde está hoje Redenção, até Canotama (costa de Canutamã), que Manoel Urbano desbravara com auxílio dos pamaris.

Em 1866 o diretor geral dos índios, Gabriel Guimarães, no relatório daquele ano, refere-se a cinco diretorias parciais, estáveis: Alto Purus, Ituxi, Tapauá, Arimã e Hiapuá.

Compreende-se que naquele mesmo ano o presidente da província, Dr. Epaminondas Mello, renovasse a antiga tentativa de uma navegação regular — que ao cabo se contentou com a “Companhia Fluvial do Alto Amazonas”, realizando-se a primeira viagem em dezembro de 1869.

A sociedade a princípio errante, fixava-se, normalizando-se: uma Coletoria estabelecida em Canotama arrecadava no ano financeiro de 1867-1868 a renda de 16:023$540, o que era evidente progresso dado que a renda toda do Purus nos quinze anos anteriores (1852-1867), fora apenas de 29:155$864. E por fim criava-se por ato de 24 de março de 1868 a subdelegacia de polícia do Alto Purus. [ 21 ]

Apareceram novos pioneiros. Antes de 1870 Caetano Monteiro e Boaventura Santos avançaram na lancha “Canamari” até aos mais remotos pontos, e um sertanista desassombrado, Leonel Joaquim de Almeida, constituía-se modelo admirável aos rijos cearenses que em breve o encalçariam.

De feito, logo depois de inaugurada a navegação a vapor (1869) espraiou-se pelo Purus em fora, progredindo em avançamento ininterrupto, uma poderosa vaga povoadora que ainda hoje não parou, pertinaz e intorcível, firmando-se no domínio estável das terras sobre que vai passando e animada de um ritmo que a impelirá às últimas cabeceiras.

Este movimento começou em 1870 e teve um guia, o coronel Antonio Rodrigues Pereira Labre. Eficazmente auxiliado por Manoel Urbano, que o agasalhara em Canotama, o aventuroso maranhense pouco tempo depois prosseguiu pelo Purus acima, passando Huitanaã, terminus da navegação incipiente — e foi estacar nas vizinhanças da confluência do Ituxi.

Naquele ponto, sobre uma “barreira” sobranceando a margem direita do rio, derribou um lanço de floresta e alevantou num dia um papiri de folhas de palmeiras.

Plantara uma cidade. Lábrea surgiria em breve, no deserto, perpetuando-lhe o nome, e tornando-se o mais avantajado ponto de apoio à conquista que prosseguia. [ 22 ]

Não maravilha que em 1873, B. Brown e W. Lidstone, viajando pelo Purus, notassem a toda a hora, filtrando-se nas folhagens da mata marginal, os rolos de fumo revelando as barracas em que se defumava o látex das seringueiras; e que em Mabidiri e Sepatini, distantes mais de 1.300 quilômetros da foz, deparassem opulentos seringais exportando 18.000 e 30.000 kg de borracha.

Para não nos delongarmos demais não acompanharemos em todas as suas fases esta expansão povoadora, uma das mais enérgicas não já da nossa terra senão de toda a América do Sul.

O quadro estatístico junto [ 23 ] substituirá com o seu rigorismo aritmético a mais minuciosa descrição. Traçando-o escolhemos propositadamente os mais remotos pontos explorados no grande rio, e neles um trecho tendo apenas um décimo da sua enorme extensão de 2.624 quilômetros toda ela exclusivamente povoada por brasileiros. Ora, considerando-se esse quadro vê-se que na década de (1873-1883) o povoamento se alastrou até Triunfo Novo (1375 milhas da foz) impulsionado por infatigáveis exploradores em que se destacam Antonio Francisco Bacellar, Casimiro Pereira Caldas e Antonio Leonel do Sacramento.

Quanto ao desenvolvimento de todo o rio, inclusive o Acre — em cuja foz o vapor chegou pela primeira vez em 1878 — o simples confronto de sua exportação nos últimos três anos daquele decênio com a do Madeira põe de manifesto que o Purus já era o mais rico entre todos os rios da Amazônia.

Exportação de 1881 a 1883
Do Purus Do Madeira
Borracha 5.423.164 kg 3.543.995 kg
Castanhas 40.749 hl 10.913 hl
Óleo de copaíba 34.253 kg 11.908 kg
Pirarucu seco 307.103 kg 26.438 kg
Salsaparrilha 5.729 kg 281 kg
Cumaru 1.073 kg 970 kg

[Quadro 10]

Esta progressão assombrosa, salvo insignificantes intermitências, continuou, ao menos quanto à produção da borracha, averbando-se: 1.950.000 quilos, em 1884; 1.648.000, em 1885; 1.967.000, em 1886; 1.990.000, em 1887…

Como se verifica também, num simples lance de vistas sobre a Carta anexa a este relatório, já naquele tempo se estendiam pelas duas margens do Purus (não contando as do Ituxi, do Pauhini, do Inauhini, as do Acre, do Iaco etc.) mais de 400 seringais, além de uma cidade, Lábrea, erigida em comarca pela lei provincial de 14 de maio de 1884, e uma pequena vila, Canotama.

Advirtamos desde já que alguns desses sítios são verdadeiros povoados, onde se distinguem sólidas construções, certo desgraciosas, mas amplas e cômodas contrastando bastante com as primitivas barracas de paxiúba e ubuçu. [ 24 ]

“Itatuba” com 22 vivendas, na maioria cobertas de palha, adensadas sobre alta barreira, a cavaleiro das maiores enchentes; “Parepi” 25 casas numa indecisa abra do Purus que ali se alarga de mais de um quilômetro; “Aliança” perto e a montante de Canotama, com 14 habitações; “Forte de Veneza”; “Nova Colônia”, com 16, cobertas, na maioria, de telhas; “Assaituba” em situação admirável sobre uma barreira de argila colorida, extremando um “estirão” dilatado; “Providência”, com dois sobrados, e casas dispostas em arremedo de ruas; “S. Luis de Cassianã”, o maior seringal do Baixo Purus; “Sebastopol”, locada em “terra firme” complanada e alta, onde as vivendas se alinham bem construídas extremadas por uma pequena igreja; “Cachoeira”, com mais de 30 casas, um sobrado, uma capela recém-construída, e vastos armazéns; “Realeza”, com oito, de telha, grande armazém e muitas barracas; “S. Luis do Mamoriá”, 16; “Ajuricaba” em terras onduladas e firmes, tendo 12 casas além da vivenda senhoril; “Seruri”, 16 casas; “Canacuri”, com vastas habitações, cobertas de telha; “Boca do Acre”, em terreno alto de 24 metros sobre o rio, nas vazantes, mas cuja área não bastará à cidade que ali se há de erigir em virtude da sua situação privilegiada; “Porta-Alegre”; “Arapixi”, nove casas e um sobrado recém-construído; “S. Miguel” e “Redenção”, quase fronteiros, com 20; [ 25 ] “Campo Grande”, com oito, extremando larga altiplanura; “Novo Amparo”; “Talismã” e “Boa Esperança” que se ligam na mesma margem, com 18 vivendas, à parte as barracas menores; “Macapá”, com os lotes próximos, 15 vivendas, sendo o barracão solidamente construído como os demais dos outros sítios; “Catiana”, “Barcelona”; “Concórdia” um dos maiores estabelecimentos do Alto Purus; “Novo Destino” com as suas 22 habitações orlando alta barranca; “Santa-Maria Nova”; “Liberdade”, com 12 boas casas, além de numerosas barracas; “Aracajú” e “S. Brás”, defrontando-se, com mais de 20 vivendas; “Porto Mamoriá”, em terrenos altos e ondulados, onde além de notável extração de caucho e seringa se distinguem culturas de cereais mais comuns, etc.

*

No período subsequente (1882-1892) o povoamento não perdeu a marcha adquirida. Considerando-se o último trecho do rio a que nos referimos, verifica-se que só naquelas remotas paragens se fundaram 12 novos sítios. A exportação total do Purus em 1892 pesava sobre os mercados com 3.459.455 quilogramas de borracha, mais que o dobro da de 1885; e Lábrea aparecia com as maiores parcelas nos quadros demonstrativos das receitas e despesas das intendências do Amazonas, inclusive a de Manaus. Ao mesmo tempo, amortecido o tumulto das primeiras entradas, a sociedade recém-estabelecida nas novas terras equilibrava-se, disciplinada [ 26 ]; e ia generalizando a sua atividade, forrando-a à faina exclusiva do preparo da borracha, com a pequena cultura dos gêneros mais comuns, ainda que numa escala reduzida ao consumo local. Em volta dos barracões fizeram-se as primeiras derrubadas, desafogando-os e aformoseando-os com as plantações regulares que vinculavam os povoadores à terra.

Mas a exportação da borracha sob as suas várias modalidades que vão dos mais finos produtos da hevea, ao caucho e ao sernambi [ 27 ], continuou a ser o mais seguro estalão no aferir-se o progresso geral — que duplicou no decênio de 1892-1902, como o revela a simples referência das produções anuais nos últimos três anos daquele período: 5.520.000 quilogramas em 1900; 6.016.000 em 1901; e em 1902. 6.750.000, isto é, mais de um terço da produção total do Estado do Amazonas.

As levas povoadoras avassalavam quase todo o Alto Purus. À parte os demais afluentes e entre eles o Acre onde, naquele período, o ímpeto das entradas determinou grave conflito com a Bolívia, que não vem ao nosso propósito historiar, — adstringindo-nos ao curso principal do Purus, vemos que de 1898 a 1900 se fundaram mais cinco estabelecimentos nos mais afastados pontos.

Sobral, erguido em 1898, a 9° 15’ 07” de lat., demarca hoje a mais avançada atalaia dessa enorme campanha com o deserto. Quem o alcança, partindo da foz do Purus e percorrendo uma distância itinerária de 1.417 milhas ou cerca de 400 léguas, tem a prova tangível de que quatro quintos do majestoso rio estão completamente povoados de brasileiros, sem um hiato, sem a menor falha de uma área em abandono, ligadas a extremas de todos os seringais — estirando-se unida por toda aquela longura, que lhe define geometricamente a grandeza, uma sociedade rude porventura ainda, mas vigorosa e triunfante.

Porque se realizou ali, e ainda se realiza, uma vasta seleção natural. Para esse afoitar-se com o desconhecido não basta o simples anelo das riquezas: requerem-se uma vontade, um destemor estoico, e até uma complexão física privilegiada.

Lá persistem apenas os fortes. E sobrepujando-os pelo número, pelo melhor equilíbrio orgânico de uma aclimação mais pronta, pela robustez e pelo garbo no enfrentarem perigos, os admiráveis caboclos cearenses que revelaram a Amazônia.

Há, certo, naquela sociedade principiante, os vícios e os desmandos imanentes aos grandes deslocamentos sociais — e que ali repontam como repontaram nos primeiros tempos do Transwall e na azáfama tumultuária das rushs no “Far-West”, ou nas minas da Califórnia. A propriedade mal distribuída, ao mesmo passo que se dilata nos latifúndios das terras que só se limitam de um lado pelas beiradas do rio, reduz-se economicamente nas mãos de um número restrito de possuidores. O rude seringueiro é duramente explorado, vivendo despeado do pedaço de terras em que pisa longos anos — e exigindo, pela sua situação precária e instável, urgentes providências legislativas que lhe garantam melhores resultados a tão grandes esforços. O afastamento em que jaz, agravado pela carência de comunicações, redu-lo, nos pontos mais remotos, a um quase servo, à mercê do império discricionário dos patrões. A justiça é, naturalmente, serôdia ou nula.

Mas todos esses males, que fora longo miudear, e que não velamos, proveem, acima de tudo, do fato meramente físico da distância. Desaparecerão, desde que se incorpore a sociedade sequestrada ao resto do país, e para isto requer-se, desde já, como providência urgentíssima, o desenvolvimento da navegação até ao último ponto habitado, completada pelo telégrafo, ao menos entre Manaus e a boca do Acre.

Veremos que tais medidas — sobradamente compensadas com as próprias rendas atuais daquelas regiões — não demandam dispêndios e esforços extraordinários.

*

§ 2º Nas cabeceiras

Resumindo: a marcha ascensional do povoamento do Purus está hoje em “Sobral”.

Entretanto a carta anexa indica, a montante daquele sítio, outros: “Santa Rosa”, “Cataí”, “S. João”, “Curanja”, “Santa Cruz”…

São puestos ou caserios peruanos.

Mas não significam por maneira alguma o domínio definitivo e regular da terra. Já o demonstramos no Relatório misto e nada nos resta aditar à límpida concisão com que definiram a inconstância proverbial dos caucheiros as linhas que têm o alto valor de serem também subscritas pelo digno comissário peruano.

Não fora generoso renovar um assunto em que a nossa vantagem é integral e fulminante.

Notemos apenas, a correr, várias circunstâncias muito significativas. [ 28 ]

Os peruanos só se localizaram no Purus depois de 1900, ocupando apenas três sítios aquém de Sobral, os de Hosanna, Cruzeiro (Independência) e Oriente, na foz do rio Chandless — insinuando-se mansamente pelas terras desde muito ocupadas por brasileiros.

Permitiu-lhes isto a inata generosidade dos rudes sertanejos, que neles viam menos o estrangeiro que sócios na mesma empresa contra as dificuldades naturais. Mas, transcorridos dous anos (1903), pretendeu-se sancionar politicamente o que era apenas uma benévola tolerância: tentou-se estabelecer, com todo o aparato oficial, uma “comisaria” peruana na foz daquele último rio.

Então despontaram as disparidades de caráter, que tanto separam “seringueiros” e “caucheiros”, tornando-se inevitável o conflito que nos inibimos a descrever, por demais sabido e em muitos episódios implicativo da serenidade imanente a estas páginas.

Observe-se apenas, ainda muito de relance, que os invasores, refugindo à luta, cederam todo o terreno que se lhes permitira calcar, e recuaram até “Santa-Rosa”, na foz do Curinahá, extremo setentrional da sua ocupação.

Entre os dous sítios, “Sobral” e “Santa-Rosa”, estira-se hoje a faixa neutra onde ainda se distinguem os restos de dous puestos, “Union” e “Fortaleza”, abandonados pelos caucheiros.

Mas este abandono, imposto pela luta, efetuar-se-ia, em curto prazo e tranquilamente, desde que se derribassem as árvores de caucho mais vizinhas. Porque os sítios peruanos, mesmo os maiores, como “Curanja” ou “Cocama”, são simples abarracamentos.

Não há em toda a extensão que vai de “Santa Rosa” às últimas cabeceiras do Purus, uma única casa de telhas. As vivendas de palha, construídas em dez dias, denunciam a existência instável da sociedade nômada que despoja a terra e vai-se embora. Caracteriza-a a inconstância irrequieta dos “infiéles” predominantes em maioria esmagadora. Contam-se 5 peruanos, em geral loretanos, para 100 piros, campas, amauacas, conibos, sipivos, samas, coronauas e jaminauas, que todos se deparam vários nas usanças e na índole, uns e outros, já “conquistados” a tiros de rifle, já iludidos por extravagantes contratos, jungidos à mais completa escravidão.

A família não existe: não se aponta um casal unido legalmente na maioria dos sítios, senão em todos; e presente-se em tudo o desensofrido de uma perpétua véspera de viagem naquelas escalas provisórias em que o homem predetermina ficar, um, dous, três anos no máximo, para enriquecer e partir, e não voltar.

Os “tambos” erigem-se de repente numa clareira: animam ruidosamente durante algum tempo um recanto da mata; e esvaziam-se, e arruinam-se, e desaparecem no abafamento das lianas.

“Curanja” há dous anos tinha cerca de mil habitantes. Tem agora uns cento e cinquenta, e estará abandonada dentro em pouco se os caucheiros não vingarem suplantar os coronauas bravios ainda senhores das cabeceiras do rio que ali aflui.

“Cataí”, sítio aberto por um brasileiro, o velho João Joaquim de Almeida, de “Fronteira do Cassianã” estaria em ruínas se não o escolhessem para sede da Comissão Mista Administrativa.

Em “Chambuiaco”, quase fronteiro à foz do rio Manoel Urbano, a melhor cultura, um vasto mandiocal sobre pequena colina, é de um índio campa [ 29 ], o “curaca” Antonio, estabelecido acima do puesto peruano.

“Cocama” e “Santa Cruz”, animadíssimos hoje, têm a duração ligada aos últimos troncos das castilloas que profusamente ainda viçam nas suas cercanias e não durarão três anos.

Em “Tingoleales” um imenso bananal e uma cultura mais permanente de algodão, pertencem ainda a um campa, o curaca [ 30 ] Venancio, emigrado do Ucaiale.

Por fim, “Alerta”, na confluência Cujar-Curiúja, onde a própria residência principal se reduz a um vasto “tambo” de paxiúba, não tem outra cultura digna de nota além das iúcas e canas plantadas pelas mulheres amauacas.

Entretanto naquela estância a terra é de exuberância rara e ondula em suave serrania alongando-se pelas margens do Purus e do Cujar, oferecendo magnífica base a uma fazenda mais duradoura e próspera. Mas para isto exigem-se outros estímulos além do anseio da riqueza fácil, dos que ali chegam dispostos a penarem durante três anos para fazerem jus a existência opulenta noutros climas.

Nada mais além dessa preocupação exclusiva, fora da qual não se vislumbram outros agentes de coesão social.

Navegabilidade do Purus

Trechos que devem ser melhorados — Urgência da navegação regular até às cabeceiras

Da foz do Purus para as suas cabeceiras notam-se modificações na estrutura do leito e regímen das águas, que se sucedem em transições as mais das vezes insensíveis através de dilatadas distâncias. A princípio preponderam as várzeas quaternárias, que o desafogam nas enchentes, e por onde divagam os canais que o prendem ao Solimões, refletindo na inconstância das suas correntes que ora, na vazante, vão do tributário para o rio principal, ora deste para aquele, nas cheias, os últimos traços da evolução geológica da Amazônia que se encerra. Enredam-se os furos e paranamirins, certo ainda em complicadas malhas distendidas sobre vastas superfícies, mas cada vez menos fartos e extinguindo-se escondidos pelos igapós, à medida que o esforço contínuo e imperceptível da flora exuberante, dominando a violência intermitente das águas, vai construindo a terra, sobre que ficam como fugitivos esboços, cada vez mais apagados, de seu facies antigo, os numerosos lagos que a salpintam.

Estes últimos, às duas margens do Purus, já existem hoje à custa das sobras do grande rio. Verdadeiros reservatórios compensadores, alimentam-nos as cheias transbordantes; e, quando o nível daquele desce, rompem-se-lhes as estreitas barragens marginais, volvendo as águas para o Purus, cuja vazante em parte se atenua com essas reservas das enchentes.

As terras firmes, de 15 a 20 metros de altura relativa, constituídas invariavelmente de possantes camadas de argila colorida, caindo em taludes vivos para o rio, aparecem sob o nome local de “barreiras” em pontos ainda longamente espaçados até às cercanias de Canotama.

De sorte que todo este primeiro trecho, de 543 milhas, a contar da foz, derivando numa planura quase uniforme e de diminuto declive que imprime às águas uma correnteza insignificante, é francamente acessível à grande navegação, mesmo nas maiores vazantes em que só a perturbará um ou outro baixio nas vizinhanças do Tapauá e Caratiá.

No intervalo de 110 milhas, entre Canotama e Lábrea, vão desenhando-se novos aspectos e uma estrutura mais definida. Alargam-se as “terras firmes” sobretudo nas altas barrancas de Assaituba, Umari e Paciá; e no leito do rio, ao fim das vazantes, repontam as primeiras pedras de grés ferruginoso (Pará sandstein), desvendadas pela erosão, principalmente em Apituã e na volta de Jadibarú.

De Lábrea para Cachoeira (153 milhas) vai num crescendo a nova conformação dos terrenos e surgem mais numerosos os sítios inacessíveis às enchentes: Lábrea. S. Luiz, Sebastopol, Catatiá, Huitanaã e muitos outros onde já se delineiam diminutos perfis de cerros ondeantes. Ao mesmo tempo diminuem os furos; define-se melhor o traçado do rio; e as formações de grés aumentam, substituindo-se os baixios e raros paus das grandes estiagens, pelas pedras que se mostram não já longamente intervaladas senão cada vez mais próximas à medida que se avança, avultando em Cassianã e tornando-se numerosíssimas da Cachoeira para montante. O nome deste lugar revela a transição do leito embora as pedras que aí o perturbam não impossibilitem a passagem das lanchas, mesmo nas vazantes, e mal apontem à flor das águas em montículos dispersos de blocos fraturados.

Lá está, porém, a estação terminus da atual navegação a vapor [ 31 ] e dos navios de mais de 6 pés, no período que vai de fins de Abril a princípios de Novembro; e isto não em virtude da Cachoeira (porque a denominação é exageradíssima) senão porque dali por diante até à boca do Acre raro se aponta um “estirão” ou uma “praia” onde não abrolhem, ora ilhadas em acervos, ora arremessando-se em pequenos promontórios, as mesmas pedras de grés de que tratamos. Citam-se de Cachoeira para cima como paragens mais perigosas, onde, de fato, se vêem muitos restos de embarcações naufragadas — as do Pacoval, Peri, Ermida, Botafogo, Ajuricaba, Caçaduá, Santa Quitéria, Canto da Fortuna, Guajará, Santa Cruz, Terruã, Seruri, Tenha Medo, Tacaquiri, Cantagalo, Quiriã etc., até à foz do Acre.

Entretanto, apesar desta resenha alarmante, pode-se afirmar que todo este enorme trato do Purus, da sua foz à do Acre, com 1060 milhas, é navegável, mesmo em plena estiagem, para vapores de 60 a 80 toneladas, desde que eles se construam mais afeiçoados aos caracteres técnicos do rio, e se façam pequenos reparos nos pontos que citamos.

Há hoje embarcações do porte de 40 toneladas, e mais, calando, no máximo, 2 pés; e para estas sem nenhuns reparos aquela travessia só exigirá as cautelas de um prático qualquer.

Os reparos indispensáveis a franquear-se inteiramente, em qualquer estação, o grande rio até aquele ponto não acarretarão, além disto, despesas excepcionais, atenta à natureza da rocha e à sua fratura generalizada, limitando-se o trabalho a uma remoção de blocos. Porque as demais condições são altamente favoráveis: o curso das águas é tranqüilo, sem contra-correntes ou remoinhos, derivando com uma velocidade cujo máximo, 3 milhas, só é atingido, em raros pontos, nas enchentes; a largura decresce continua e insensivelmente de 1660 metros na foz para 1300 metros em Paricatuba, para 600 metros perto do Tapauá, para 320 na Cachoeira e 236 na confluência do Acre; a profundidade que diminui também uniformemente, nas enchentes, de 25 metros na foz para 16 metros na Cachoeira, comporta, como vimos, na vazante os calados das embarcações normais; e afinal, a despeito de um traçado sinuosíssimo, não há voltas vivas capazes de perturbarem a passagem dos maiores vapores.

Da foz do Acre para as cabeceiras modifica-se ainda o regímen do rio. As pedras diminuem, embora ainda aflorem, sobretudo, em S. Miguel, Pau do Alho, até além da Liberdade, onde o grés ferruginoso é substituído por um conglomerado duríssimo.

As “terras firmes” são mais altas, expandindo-se em maiores áreas, correndo o rio mais encaixado entre barrancos, que não assoberba nas maiores enchentes.

Ao mesmo passo aumenta a força da corrente, que fixaremos em 3,3 milhas por hora, nas cheias [ 32 ]. Daí a consequência inevitável de um mais intenso ataque das partes côncavas das margens e o desabamento delas em grandes lances arrastando as árvores, que sustêm, indo arrebatados pela correnteza troncos e galhos numerosos que não raro obstruem o leito, enquanto as “terras caídas” formam os “torrões” e baixios.

Estes novos entraves substituem as pedras do Baixo Purus e são mais sérios, porque, originando-se de um esforço permanente das águas, exigem serviço de conserva organizado e constante, que nunca ali houve. As mui raras lanchas que vão além do Iaco, evitam a subida durante a estiagem, de sorte que as comunicações se fazem apenas à custa das montarias e ubás, aptas a se insinuarem entre os paus ou a deslizarem sobre os bancos.

Entretanto, ainda nesta seção, não seria muito dispendioso um serviço sistemático de melhoramento, que a pouco e pouco a afeiçoasse a uma navegação mais regular e rápida.

Não precisamos dar maior destaque à imperiosa necessidade de um tal serviço. Basta considerar-se que do Iaco para cima, onde se erigem mais de 120 seringais brasileiros, os transportes e comunicações estão adstritos à passagem aleatória de raríssimas lanchas, e de uma ou outra canoa, em travessia escoteira. Entretanto, a remoção parcial dos paus, que em trechos salteados atravancam o rio, seria facílima, facultando desde logo, em qualquer tempo, um tráfego de viagens seguidas, mesmo para as lanchas de três pés de calado [ 33 ]

*

Estes reparos poderiam, depois, ser completados por um outro de efeitos admiráveis ante as pequenas despesas que acarretará. Referimo-nos à retificação de muitos trechos por meio da seção dos “sacados”, estas formas tão curiosas dos rios amazônicos que não escaparam à mesma incuriosidade dos selvagens, que lhes deram, numa e noutra banda, no Brasil e no Peru, os nomes de tipiscas e abuninis. [ 34 ]

Realmente, do Acre para cima as sinuosidades características do Purus são mais sensíveis, mercê da menor largura do leito, tornando-se também mais delgados os sucessivos istmos que separam as suas margens fundamente recortadas. Deste modo a travessia de um para outro ponto da mesma borda, que exige em alguns trechos muitas horas de navegação, efetua-se em poucos minutos, por terra.

Considerem-se na planta que apresentamos, entre muitos outros, os seguintes pontos, da confluência do Acre para montante:

1º Pau do Alho − Cametá: distam, por terra, cerca de uma milha, e mais de dez por água. Um caminhante, a pé, em passo natural, faz em vinte minutos a viagem de um dia de navegação a remo.

2º  Vista Alegre − Santa Maria: o istmo tem 462 metros de largo (5 minutos de marcha), enquanto a curvatura do rio tem um desenvolvimento de 15 quilômetros.

3º Silêncio − Silêncio de Cima: atravessa-se o istmo em meio minuto, tempo requerido, no máximo, a percorrer-se a sua largura de 30 metros, ao passo que a navegação é de 6500 metros, em volta quase fechada.

4º S. Jorge − Novo Mirador: vai-se em 22 minutos, folgadamente, de um destes pontos ao outro, o que pelo rio demandará muitas horas.

Poderíamos prolongar a lista enumerando outros nas cercanias da foz do Chandless, no Funil, no Muronal, em Santa-Rosa, e de Curanja para cima. Mas os exemplos referidos são bem significativos. Deles se colhe ainda que além do encurtamento das distâncias essas aberturas dos istmos acarretarão outras vantagens. Realmente, em todos os trechos que se retificarem, as quedas de nível que se distribuíam em longas curvaturas irão efetuar-se, mais de golpe, em diminutos traçados retilíneos. Assim a correnteza aumentará sensivelmente e com ela, consoante um fato conhecido [ 35 ], a escavação do leito, o que será um elemento favorável para a desobstrução dos lugares a jusante. É certo que a pouco e pouco, o rio irá readquirindo a situação de equilíbrio anterior, por um alongamento do traçado, degradando outras barrancas e torcendo-se em outras voltas; mas os efeitos do primeiro desnivelamento já estarão completos, sendo facilmente mantidos por uma conserva regular e contínua.

Estes cortes não exigem dispendiosos trabalhos. Efetuam-nos por vezes os sitiantes ribeirinhos com os diminutos recursos que possuem.

O processo é primitivo e simples. Consiste em descobrir na arqueadura a montante o ponto mais atacado pelo rio, abrindo-se nela um valo ou cava em toda a altura da barranca, completada em cima, na mata, por uma picada em linha reta que vá interferir a mesma margem à jusante, na outra volta. É o trabalho único. O resto entregam-no ao próprio rio. Sobrevém a enchente; as águas, cuja violência cresce com a correnteza, torvelinham penetrando no pequeno valo e solapam-no numa corrosão fortíssima desde a base, atacando-o em todos os pontos à medida que sobem e determinando as caídas de terra que o reprofundam e alargam. E se dominam a crista da barranca, espraiando-se pela mata, acompanham, naturalmente, formando às vezes verdadeira correnteza, o desimpedido do trilho que se abriu atravessando o istmo.

Desta sorte o canal vai abrindo-se por um duplo esforço de efeitos extraordinários ao fim de algumas enchentes.

É o processo primitivo e geralmente em uso.

Mas é lento e pode ser melhorado, sobretudo considerando-se o permanente auxílio do próprio rio. Baste-nos notar que este pela sua ação exclusiva vai retificando-se sensivelmente em muitos pontos.

Compare-se a carta atual com a de W. Chandless, e ver-se-ão divergências oriundas apenas desse fato. Assim para citar apenas um pequeno número, se destacam entre os sacados mais modernos: o de Quibeburian, aberto pelo só esforço das águas em 1884; o de S. Joaquim, perto de Mapiá, em 1883; o de Caratiá abaixo de Canotama, em 1900, onde a direção do rio se deslocou, de golpe, de quase 90°; e o de Jurucuá em 1903. Neste último passam hoje, mesmo na estiagem, embarcações calando 5 pés, e reduz-se a pouco mais de uma milha a travessia anterior que se alongava numa volta de 6, aproximadamente. [ 36 ]

Noutros pontos ainda se ultimou o esforço persistente das águas, mas o seu progredimento é visível. Comparem-se, por exemplo, as duas cartas, nas cercanias da foz do Sepatini: ver-se-á que os complicados meandros que ali se retorcem, já acentuaram vivamente as suas voltas não sendo difícil prever-se em poucos anos um grande encurtamento do traçado, pelo rompimento de dous istmos e formação simultânea de dous vastos circos de erosão, mais dous lagos anulares centralizados por uma ilha, a exemplo dos que no Anori, na Providência e em Vera- Cruz vão ajustando-se às duas bandas do Purus e desenhando, numa imprimadura fidelíssima, todas as fases da sua evolução geológica notável.

*

Da Forquilha para as nascentes, pelos dous galhos Cujar e Curiuja, as viagens, em qualquer tempo, podem realizar-se em ubás e mesmo em grandes montarias. Nós a efetuamos em plena estiagem (julho e agosto) em pesadas canoas de itaúba. Mas a navegação ali jamais perderá esta forma primitiva. As numerosas itaipavas e quedas, talhadas de ordinário em rocha viva duríssima, exigirão trabalhos excepcionais, que redundariam talvez em maiores dificuldades e estorvos — porque, como já o notamos, na extrema escassez de águas daqueles dous rios as pequenas cachoeiras têm o efeito de barragens, anulando a montante longos e sucessivos baixios. Os nossos canoeiros e varejadores reanimavam-se quando as encontravam. Vinham sucumbidos de cansaço na lenta travessia dos rasos “estirões” — onde as quilhas embebidas na areia exigiam o emprego de alavancas — e estavam certos de que transpondo-as teriam a montante um ou dous quilômetros de navegação desafogada e livre.

Nas enchentes todas as pedras dos rápidos são cobertas pelas águas, favorecendo a passagem a vapores de regular calado. Mas isto com os maiores riscos porque o nível delas pode baixar de súbito deixando-os, em seco, no alto de uma barranca, além de que talvez não vençam a rápida correnteza capaz de arremessá-los de encontro às concavidades das numerosas voltas em extremo vivas, em que coleiam os dous pequenos rios. Os mesmos índios nas ubás aligeiradas, aguardam naqueles pontos que se atenuem as enchentes para reatarem as jornadas interrompidas pelos grandes repiquetes.

*

Terminando estas breves considerações advirtamos que elas visam sobretudo atrair a atenção dos poderes públicos para este assunto de relevância intuitiva. A incumbência honrosíssima que nos levou àquele departamento do nosso país era, por sua natureza, expedita: não comportava vagares para estudos que nos aparelhassem a apresentar esclarecimentos pormenorizados e seguros acerca dos caracteres técnicos das várias seções que apontamos, ou a definir a importância dos melhoramentos requeridos com as parcelas de um orçamento rigoroso. No quadro que aditamos a estas páginas, indicamo-los sob um aspecto geral. É um esboço em largos lineamentos, mas absolutamente fiel. Poderá ser avivado em vários pontos; em nenhum, corrigido.

Dele se colige que o Purus pode ser francamente acessível à grande navegação regular, ininterrupta, até à Forquilha, numa distância itinerária de 1667 milhas, desde que a sua navegabilidade incomparável se remate apenas com alguns reparos de todo alheios a processos ou serviços excepcionais de engenharia.

Ora, só neste trecho (3087 quilômetros), não incluindo os seus numerosos tributários, ele domina todo o desenvolvimento de famosos cursos d’água entre os maiores da terra [ 37 ] e ocupa, como rio navegável, o primeiro lugar entre todos os do nosso continente, excluídos o Amazonas e o Prata.

Vimos, por outro lado, embora muito de relance, em páginas anteriores, a sua considerável importância econômica.

Não precisamos prosseguir, demonstrando a necessidade, a urgência imperiosa e a vantagem, sob todas as formas incalculável, de uma navegação que em breve há de transfigurar as paragens por onde se alonga a mais dilatada diretriz da expansão do nosso território.

Rio, 10 de março de 1906.

Euclides da Cunha.

[ 1 ] Revista do Instituto Histórico e Geográfico. Tomo 28. N. do A.
[ 2 ] Nome que se mudou em Cuchiuara ou Cuxiuara.
Diz Osculati: Il 30 si superarono nel matino a Cuchinara, le foci del Purus conoscinto anchi sotto il nome di Cuchibará.
E o capitão-tenente Lourenço da Silva Araujo e Amazonas, no seu Dicionário Topográfico, Histórico e Descritivo da Comarca do Alto Amazonas (1852):
“Deságua este rio (o Purus) por quatro bocas, das quais a segunda, Cuxiuara, conserva o nome que ele teve primitivamente.” N. do A..
[ 3 ] Milho (Zea mays) em espanhol. N. do E.
[ 4 ] Vide a — Carta Geográfica de projeção ortogonal esférica da Nova Lusitânia ou América Portuguesa, e Estado do Brazil. 1798. N. do A.
[ 5 ] Aires do Casal, “Corografia Brasílica”, II, pág. 330. N. do A.
[ 6 ] Dicionário Topog. Hist. e Descritivo da Comarca do Alto Amazonas, por Lourenço de Sousa Araujo e Amazonas. 1852. N. do A.
[ 7 ] The Andes and the Amazon, 1870… “It is probably the Amaru-Maiú or ‘Serpent River’ of the Incas.” N. do A.
[ 8 ]from the rising of the sun he formed a much better estimate of the general course than I should have thought possible in so tortuous river, and not a bad one of the distance in leagues.
Chandless. Notes on the river Purus. N. do A.
[ 9 ] Ofícios de 24 de novembro de 1861 e 23 de janeiro de 1865, do engenheiro Silva Coutinho ao presidente do Amazonas. Relatório da Sec. da Agric., 1865. N. do A.
[ 10 ] Vide relatório da Sec. de Agric. 1865. N. do A.
[ 11 ] Segundo anotou Oswaldo Galotti, “um dos lugares mais belos que impressionaram Euclides”. Ver final de Uma entrevista com o dr. Euclides da Cunha: os trabalhos da comissão brasileira de reconhecimento do alto Purus (Jornal do Commercio, Manaus, ano 2, n. 579, 29 out. 1905. p. 1). N. do E.
[ 12 ] Fifteen thousand miles on the Amazon and its tributaries, [de Charles Barrington Brown, William Lidstone, London, Edward Stanford, 1878]. N. do A.
[ 13 ] Consultem-se, por exemplo, o “Mapa Geográfico do Estado do Amazonas” organizado em 1901 por Ermano Stradelli, de acordo com as notas de trinta e tantos geógrafos e exploradores, ou a carta anexa ao Tomo XIII do “Boletim de la Sociedad Geografica de Lima” . N. do A.
[ 14 ] Sobre a viagem notável do Dr. Heath leia-se o 8º v. do Proceding of the Royal Geographical Society, London, 1883. N. do A.
[ 15 ] O nome original é Fitz-Carral. N. do A.
[ 16 ] 73 do Cujar e 5 no Cavaljani. N. do A.
[ 17 ] Nome com que os amauacas designam a calliandra trinervia. N. do A.
[ 18 ] Revista do Instituto Hist. e Geog. Bras. Tomo 36 (1873). N. do A.
[ 19 ] Notícas Geográficas. Cônego André Fernandes de Souza, R. I. H. e Geográfico. Tomo 10 (1848). N. do A.
[ 20 ] Hoje Aiapuá. N. do A.
[ 21 ] Relatório da Presidência do Amazonas, de 1868. N. do A.
[ 22 ] Em 22 de outubro de 1890, pelo Decreto Estadual nº. 67, é desmembrado de Lábrea o território que formou o município de Boca do Acre (Dicionário Geográfico do Brasil, Moreira Pinto). N. do E.
[ 23 ] Fifteen thousand miles on the Amazon and its tributaries, by C. Barringhton Brown and W. Lidstone. N. do A.
[ 24 ] Vide o quadro anexo abrangendo somente os 25 seringais que se acham entre Macapá e Sobral, e que são os mais longínquos do Purus. Estão de fato, com aproximação razoável, num décimo apenas da extensão do Purus entre a sua foz e o último sítio brasileiro, Sobral. N. do A.
[ 25 ] “Maripuá” casas de telha e uma pequena igreja; “Guajarrahã”, barracões de telha; “Caçaduá”, com dous grandes agrupamentos de casas; “Ajuricaba”, entre cujas vivendas se destaca grande sobrado de pedra e cal; “Quiciã” sobrado coberto de telha, grandes armazéns, vasto pomar; “Peri”, muito bem construído, com extensa ponte até ao porto; “Sepatini”, muitas casas de telhas, e grande sobrado senhoril, de pedra e cal; “Penha do Tapauá”, sólidas vivendas e uma capela. Em “S. Luis do Mamoriá” está o 4º juizado de casamentos de Lábrea, e existe uma escola, o que acontece em muitos outros. N. do A.
[ 26 ] Extrato do Relatório do Chefe de Segurança do Amazonas apresentado em 1880 ao governador do Estado:
“Consigno, porém, que durante o longo período abrangido por este Relatório não se reproduziram as lutas sanguinolentas travadas quase sempre por motivos de posse de seringais, nos rios Purus, Madeira, Juruá e outros.”. N. do A.
[ 27 ] Sernambi, cernambi, sambaqui ou CVP prensado virgem é o látex coagulado naturalmente na caneca coletora. Trata-se de uma borracha de qualidade inferior. N. do E.
[ 28 ] Cf. a respeito Formação histórica do Acre, de Leandro Tocantins, v. 2, p. 395 (Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2001). N. do E.
[ 29 ] Os campas, graças à bravura pessoal, conservam a primitiva liberdade, apenas iludida nas tortuosidades dos contratos que aceitam. N. do A.
[ 30 ] Curaca, corresponde a tuchaua dos índios amazônicos; é o chefe. N. do A.
[ 31 ] Amazon Steam Navigation Company, Limited. (Subvencionada). N. do A.
[ 32 ] É um maximum atingido em raríssimos pontos.
No estirão logo acima do Acre, encontramos pouco mais de uma milha por hora, em princípios de maio, numa enchente média. N. do A.
[ 33 ] Mesmo no estado atual de completo abandono do rio, a nossa lancha Cunha Gomes e a peruana Cahuapanas, calando cerca de 5 pés subiram em plena estiagem quase, em fins de maio, até S. Braz; e a N. 4, da nossa marinha, calando mais de três pés, foi de S. Braz à confluência do Chandless em poucas horas. N. do A.
[ 34 ] Tipiscas ou sacados são lagoas que se formam na época da enchente. De um lado, se formam pela sinuosidade do leito fluvial e, de outro, pelo impulso da água, que tende a correr em linha reta, convertendo em lençóis de água as curvas que as margens apresentam. N. do E.
[ 35 ] “A retificação do Izar determinou (de 23 de outubro de 1878 e de 44 de fevereiro de 1885) um abaixamento do leito de 1,443m em 5 quilômetros de extensão. A do Reno, na planície alemã perto de Alsácia, diminuindo o percurso de 23% (81 quilômetros) motivou o abaixamento do leito, de mais de 2 metros, entre Rheinweiler e Neuenbürg…”
A. de Lapparent. Geographie physique. N. do A.
[ 36 ] Da boca do Acre à Forquilha desenvolvem-se 607 milhas, ao passo que em linha reta há 290 milhas. Assim, a distância itinerária, ali, é mais do dobro da geografia sendo fácil concluir-se que os trabalhos precitados poderão reduzir consideravelmente esta diferença notável. N. do A.
[ 37 ] Notem-se ao acaso: o Danúbio (2.860 quilômetros), o Reno (1.300), o Dnieper (2.150), o Orenoco (2.250), o Ganges (3.000), o Amu-Daria (2.200), o Murray (2.870), o Orange (2.050), o Zambeze (2.660) etc.
Observem-se também entre os maiores afluentes do Amazonas: o Madeira é interrompido pela seção encachoeirada que começa em Santo Antonio (670 milhas da foz); o Tapajós depois de 1.300 quilômetros interrompe-se no salto Augusto; o Tocantins mais perto ainda da confluência, de onde dista 133 milhas a cachoeira dos Guaribas; o Rio Negro depois de S. Gabriel não é um rio navegável, etc.
O Purus desenvolve-se em 3.087 quilômetros sem a mais diminuta queda, ou águas quebradas. N. do A.