O caso dos tijolos

Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas

Gato Félix. Ilustração: Luiz Carlos Capellano

Não há nada mais ameaçador à segurança local do que um adolescente criativo em busca de aventuras; imagine a reunião de quase 100 desses adolescentes juntos! Passa a ser uma ameaça à segurança nacional! É isso que a Semana Euclidiana vive ano após ano, assim como seus organizadores. Pois, com essa história de tradição rondando os ares, uma dupla, que já ajudou a tirar o sono dos organizadores, mas que, com o passar dos anos, acabou experimentando do próprio veneno, resolveu criar um trote baseado em uma antiga tradição da Semana.Durante muitos anos, nessa semana de festas, sonhos, encantamentos, encontros e despertares, havia o tradicional Baile Branco onde, obviamente, as pessoas só entravam vestidas de branco. Contam que os participantes da Semana Euclidiana eram avisados com antecedência dessa exigência e era comum os maratonistas, que se esqueciam de trazer  o traje, saírem pedindo emprestado pela cidade. Afinal, do Baile Branco, ninguém podia ficar de fora!

O episódio narrado ocorreu quando os Bailes Brancos já tinham sido extintos e dançar não era mais a principal diversão.

Pensando em reviver a agitação e a correria atrás dos trajes para o baile, a dupla veterana resolveu assustar os maratonistas calouros (naquele tempo ainda não existia a expressão “Bicho”) condicionando a participação deles na maratona intelectual a uma modesta contribuição.

Vale lembrar que naqueles anos o que mais assustava um maratonista era a ameaça de ser deportado para sua cidade natal por mau comportamento, ou ser impedido de realizar a prova final, pois foi disso que a dupla se valeu.

A cada ano, os maratonistas ficavam alojados em lugares diferentes, sempre contando com a boa vontade das instituições riopardenses que não mediam esforços para alojar os jovens e para que a semana fosse um sucesso.

Vendo esse movimento acontecer todos os anos, a dupla lançou uma nobre ideia: A construção da Casa do Maratonista! Local que abrigaria os maratonistas em agosto e nos demais meses seria usada como alojamento para outros eventos.  A ideia era boa, mas a ação duvidosa.

A cada maratonista que chegava à rodoviária no dia 08 de agosto, e eles estavam lá na chegada de quase todos os ônibus, eles perguntavam:

– Você trouxe o tijolo da sua cidade?

– ?????

– Como? Que tijolo?

– O tijolo para a construção da Casa do Maratonista que está sendo construída com os esforços de todos nós. A orientação foi junto com a ficha de inscrição.

– !!!!

– Não viu? Ai… ai… ai… Não leu direito a ficha, poderá ter sua prova não corrigida.

– !!!!!

– A entrega se dá sempre na Herma, todos os anos, na solenidade de encerramento da Semana.

Não é preciso dizer que, naquele tempo em que os componentes do grupo Polegar ainda eram dedos mindinhos, os jovens acreditavam facilmente em veteranos metidos a espertos. Só que os espertos se esqueceram de desfazer a mentira ao longo da semana, na verdade havia tanta traquinagem para ser pensada e feita que essa logo cairia no esquecimento.

Cairia no esquecimento se, no dia 15 de agosto, na Herma, durante o encerramento da Semana, e para o espanto dos organizadores e surpresa dos veteranos, muitos tijolos não tivessem aparecido empilhados com cartazes em defesa da construção da tão sonhada Casa do Maratonista.

Junto aos tijolos  chegou um cidadão muito bravo, reclamando:

– Por isso que a minha construção não vai pra frente, “tá aí” – o sumiço dos tijolos!

Bem! Se pelo menos tivéssemos feito isso anualmente, certamente já teríamos erguido algumas paredes da Casa do Maratonista.

Essa é mais uma das histórias de Semana Euclidiana e, se alguém duvidar, há fotos que comprovam.

Como citar
SILVA, Rachel Aparecida Bueno da. O caso dos tijolos. In: Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas. pref. de Fausto Salvadori Filho. São Paulo: Casa do Novo Autor, 2012. pp. 33-5. E-book. Disponível em: https://euclidesite.com.br/aconteceu-em-agosto. Acesso em: [data]. Reprodução permitida somente para fins educacionais e desde que citada a fonte.