Esse livro eu não li

Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas

Gato Félix. Ilustração: Luiz Carlos Capellano

Para os jovens estudantes da Semana Euclidiana, conhecidos por maratonistas, o ponto alto da semana é toda ela, cada dia, cada hora, cada minuto, cada momento… Entretanto, para os festejos euclidianos é o discurso de encerramento na herma, hoje mais conhecida por Recanto Euclidiano.  O movimento euclidiano iniciou em agosto de 1912, três anos após a morte do escritor, na porta da cabana de zinco, onde Euclides da Cunha trabalhou na construção de seu livro e na reconstrução da ponte, às margens do Rio Pardo. Um grupo de amigos passou a reunir-se anualmente nesta data para homenageá-lo, sob o lema: “Por protesto e adoração”.

Com o tempo, o protesto foi deixado de lado, mas a adoração só fez crescer e lá só discursavam os amigos de Euclides, aqueles que “vestiam sua camisa”.

Discursar no dia 15 de agosto, no Recanto Euclidiano, digo na Herma, era uma grande honraria, em tempos que amizade, solidariedade, companheirismo não eram apenas palavras bonitas, elas eram carregadas de significação e as pessoas agiam segundo elas.

Semana Euclidiana é semana de magia, alegria, episódios inusitados e tristeza no dia 15 de agosto. Para alguns amigos de Euclides pelo luto, para a maioria dos maratonistas pelo término de um encontro que ficaria para sempre na memória dos que ali estiveram.

Um desses amigos de Euclides, frequentador assíduo da porta da cabana e que se fazia presente nos discursos de encerramento ano após ano, mais uma vez tomou para si a palavra e no “termo integral de sua significação”. Ninguém mais falava, ou ousava mexer um músculo.

Minutos antes, o responsável pela Casa Euclidiana, ao abrir a solenidade, solicitou a execução do Hino Nacional, o qual todos cantaram, uns mais que os outros e o amigo do Euclides  iniciou o discurso dando uma bronca fenomenal, como era sua marca registrada.

– Durante o Hino Nacional deve-se ficar completamente imóvel, não se mexe um único músculo, pois isso é uma afronta à Pátria Mãe Gentil. E, chamando a atenção dos jovens maratonistas que ousavam respirar um pouco mais forte, foi emendando seu discurso.

É importante lembrar-se de que saíamos dos anos difíceis da ditadura militar que começava a dar os primeiros sinais de decadência, mas que a todos assustava e era capaz de levar à cadeia o desavisado que não estivesse em posição de sentido durante a execução do Hino Nacional.

É bom esclarecer que o orador tinha uma rígida formação retórica e seus discursos costumavam prender a atenção da plateia com as constantes alterações de voz que chegava aos brados e a galera delirava. A figura em questão já era bastante conhecida nesse meio, exatamente por estas características e sempre que permitia a ocasião, era provocado para isso. Claro que ele gostava e muito, principalmente porque a cidade assistia ao evento também, do alto da avenida.

Diante desse clima, o discurso transcorria e nenhum músculo se mexia, ninguém em sã consciência ousava ir contra o orador, nem em pensamento, pois se corria o risco de telepatia, com pena de ser expulso, quase excomungado do meio euclidiano.

Como sempre a tônica era a importância do livro Os sertões, e esta verdade era absoluta, segundo bradava o orador, o maior livro já escrito no Brasil, na América, no mundo, no sistema solar, se isso fosse possível. Após quase 30 minutos de inflamado discurso e de músculos imóveis o orador encerra o discurso, abrindo… Isso mesmo, abrindo a palavra ao público. Era o momento da quase abertura política e ele estava se contagiando com o clima de democracia que ameaçava invadir o país.

– A palavra está aberta, a tribuna é livre, use-a quem tiver uma verdade, maior que essa para expor. Provocou o orador.

Provocou e estatelou os olhos para certificar-se de que seu recado fora dado e bem dado. Esse foi seu mal, apesar de não haver coragem entre aqueles que o conheciam de contestar, surgiu no meio da multidão uma cabeça anônima e ébria…

Vestindo um terno escuro e maltratado pelo tempo, segurando um grosso livro nas mãos, dirigiu-se cambaleante à tribuna livre e jogando pro lado o orador, tomou-lhe literalmente o microfone e a palavra.

– Esse livro aí eu não li não, mas esse aqui eu conheço muito bem e acho que o senhor também deveria ler, é a Bíblia!

Ao que o amigo de Euclides respondeu de pronto, tentando consertar o desconserto causado pelo ébrio:

– Ah! O senhor está falando da Bíblia da Nacionalidade!!!

– Da nacionalidade não, essa é da Bere, minha mulher. Respondeu o ébrio.

Foi assim que terminou aquela Semana Euclidiana, de que ano? Ah, isso eu não lembro, só sei que aconteceu em agosto.

Como citar
SILVA, Rachel Aparecida Bueno da. Esse livro eu não li. In: Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas. pref. de Fausto Salvadori Filho. São Paulo: Casa do Novo Autor, 2012. pp. 17-9. E-book. Disponível em: https://euclidesite.com.br/aconteceu-em-agosto. Acesso em: [data]. Reprodução permitida somente para fins educacionais e desde que citada a fonte.