A queda do poder – I

Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas

Gato Félix. Ilustração: Luiz Carlos Capellano

Houve uma conferência oficial no dia 14 de agosto que, por muito pouco, não terminou somente com o conferencista presente, salvo pelo episódio que ficou conhecido por: A queda do poder. Caso o poder não tivesse caído naquela noite, certamente ele terminaria a sós com o microfone.

As pessoas, quando falam, se empolgam, principalmente se o assunto é de seu agrado. E foi isso o que aconteceu…

O conferencista não era frequentador assíduo da Semana Euclidiana, embora fosse pesquisador bastante respeitado, julgou conveniente oferecer ao público todos os elementos de que seu conhecimento dispunha.

Seu tema era a Guerra de Canudos. Uma guerra ocorrida no sertão da Bahia por quase um ano e ele descrevia pormenorizando cada expedição, cada batalhão, cada pelotão, cada soldado.

Descrição primorosa era feita sobre as vestimentas, as armas, os hábitos mais diversos dos combatentes e dos combatidos, além de descrever cuidadosamente cada elemento da vegetação da caatinga, sua espécie, reprodução, aplicação etc.

Não há na literatura o registro de autor que fizesse descrição tão pormenorizada,  por isso mesmo não é preciso dizer que a conferência já passava de uma hora quando os primeiros ouvintes começaram a se levantar e sair, contrariando todas as normas da elegância e boa educação. Mas, “venhamos e convenhamos”, até a elegância e educação têm lá seus limites.

Com duas horas de conferência, já no limite da paciência, foi a vez dos maratonistas se levantarem e abandonarem o barco. Não quiseram nem mesmo ouvir o pronunciamento do título da redação que comporia a maratona intelectual no dia seguinte que, naquele tempo, era anunciado logo após a conferência oficial.

Quarenta e cinco minutos após a debandada, quando os últimos bravos, que eram os professores do ciclo,  davam mostras de desespero, alguém passou um recado do responsável pelo evento que dizia:

– “Prezados professores, aguardem o término da conferência, por favor, pois será oferecido um jantar aos senhores e ao conferencista.”

Não é necessário dizer que todos foram dissuadidos a desistir da fuga.

Na mesa composta por autoridades, o cansaço era visível e indisfarçável, ninguém mais fazia questão de esconder que cochilava e foi aí que tudo aconteceu.

O prefeito da cidade, vítima do cansaço e do conferencista, num descuido, cochilou mais profundamente recostando-se em sua cadeira, sofreu por parte desta um profundo golpe, uma verdadeira traição… Foi derrubado, ficando de pernas pro ar.

Naquele momento, ante  tamanho susto e embaraço,  todos despertaram e ficaram atentos ao que estava acontecendo, menos o conferencista que, diante do episódio, emendou em seu discurso sobre a Guerra de Canudos: “E na noite de hoje literalmente, o poder caiu em S. José do Rio Pardo.”

O discurso seguiu por mais trinta minutos, completando mais de três horas de fala, um recorde! Não é preciso dizer que o jantar virou uma ceia e que o prefeito não seguiu com o grupo, alegando compromissos inadiáveis, àquela hora!

Foi assim que esse episódio ficou conhecido como: A queda do poder.

Como citar
SILVA, Rachel Aparecida Bueno da. A queda do poder – I. In: Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas. pref. de Fausto Salvadori Filho. São Paulo: Casa do Novo Autor, 2012. pp. 39-40. E-book. Disponível em: https ://euclidesite.com.br/aconteceu-em-agosto. Acesso em: [data]. Reprodução permitida somente para fins educacionais e desde que citada a fonte.