Parecer sobre Fernando Augusto Georlette

O sr. dr. Euclides da Cunha lê o parecer que, como relator da comissão de geografia, lavrou, relativamente à proposta apresentando o sr. F. A. Georlette.

O parecer está concebido nestes termos:

O sr. F. A. Georlette, vice-cônsul do Brasil em Antuérpia, realiza o caso notável de um estrangeiro que se nacionaliza entre nós sem estar no nosso país, identificando-se com a nossa vida e procurando a primeira linha entre os que melhor compreenderam os nossos destinos. Pelo menos, encantam-nos o entusiasmo e o descortino superior desse compatriota virtual, que não reluta em romper com os maiores preconceitos nativos, caracterizando o Brasil como le plus beau et plus important pays de race latine, sem enunciar uma frase vã ou armada a iludir a nossa vaidade nacional, porque a lemos, assim como outras, repassadas da mesma ardente simpatia, no meio dos mais rigorosos dados positivos, como a fórmula dominante de uma convicção logicamente construída.

É o que demonstram as suas numerosas monografias, escritas a partir de 1889 — quando ele resumiu em três boletins da Société Royale de Geographie d’Anvers as nossas questões de fronteiras — e vindo até hoje, ininterruptas e constantes, com o recente e magistral estudo acerca das condições físicas e econômicas do porto do Rio de Janeiro, publicado no exemplar de julho próximo passado da Révue des Questions Scientifiques, de Bruxelas.

Dificilmente se enumerariam todos os trabalhos elaborados neste intervalo de 18 anos, quase todos atinentes a assuntos brasileiros. Além disto, os limites impostos pela praxe aos pareceres deste Instituto impossibilitam-nos demorada análise deles.

Se a fizéssemos, veríamos que os trabalhos do sr. Georlette, tendo todos o aspecto de folhetos, alguns de número diminutíssimo de páginas, adrede feitos para leituras rápidas, não significam um esforço dispersivo, senão que se travam e se encadeiam erigindo-se capítulos de um grande livro traçado com rara segurança de vistas, e onde avulta, sobretudo, o significado prático das nossas questões mais importantes.

Cada um deles, considerado isoladamente, caracteriza-se por uma concisão eloquente.

Sente-se a preocupação do propagandista agindo nos centros de vida atropelada e intensa, onde aos seus leitores faltará o tempo para versarem alentados volumes.

Os mais complexos assuntos concentra-os em poucas linhas, sob a forma irredutível de seus significado essencial.

L’État de l’Amazone, por exemplo, é um simples folheto; mas nas suas 92 páginas, de par com os traços dominantes da geografia descritiva e de climatologia tópica, mostram-se-nos os caracteres mais expressivos do regime social e econômico da Amazônia.

O autor, naquele resumo admirável, não se atém apenas à descrição da terra, ou de seus extraordinários produtos, apresentando-nos as estatísticas pormenorizadas de cada um deles comercialmente considerados. Vai além: aponta-nos o quadro social correspondente; e maravilha que, sem o mais breve trato da sociedade provisória, que ali se agita, ele no-la defina com tamanha segurança, percorrendo-lhe todas as camadas.

Esta lucidez, revelando arguto espírito crítico capaz de joeirar a forma real dos fatos, cujo conhecimento lhe advém provindo das mais opostas informações, ele a patenteia, notavelmente, na sua mais recente monografia, Les Ports et leur fonction économique, na qual considera exclusivamente a cidade do Rio de Janeiro.

Aí não nos surpreende a descrição física perfeita, miudeando-se ao ponto de contar as palmeiras do Jardim Botânico, ou de medir a área do campo de Santana (190.000m²), para mostrar que ele é quase o duplo da praça Real, de Berlim (100.000m²), e muito maior que o campo de Marte, de Paris (112.000m²); o que nos surpreende é o quadro histórico da nossa via econômica em função do movimento marítimo deste porto, e o amplo descortino de seu futuro extraordinário.

O sr. Georlette, com efeito, não se limita a fixar em algarismos rigorosos, a valia atual do entreposto, que açambarca hoje, como há vinte anos, a metade do comércio geral de importação do Brasil.

Patenteia-nos o evolver de sua missão econômica. Para isto descreve o complexo sistema ferroviário, que o serve, e o desenvolvimento vindouro deste, em páginas que são as mais resumidas e expressivas de quantas se tem escrito sobre a matéria.

As várias linhas da estrada de ferro Leopoldina a irradiarem pelo norte do Estado do Rio, para o nordeste mineiro e para o Espírito Santo; o traçado da Central e seus dilatados ramais; a São Paulo–Rio Grande, destinada a articular-se com as redes Uruguaia e Argentina de Corrientes, ligando o Rio ao extremo sul da América; a noroeste, lançando-se de Bauru a Corumbá, onde despertará futuras redes bolivianas e chilenas, que nos conduzirão ao Pacífico, para onde se está deslocando vagarosamente o centro de figura da civilização; a oeste de Minas, e o seu novo objetivo em demanda de Goiás; todas estas linhas, de rumos vários e distensos, nitidamente se destacam as mais inexpertas vistas, denunciando, ao lado do nosso desenvolvimento econômico, o crescente ampliar-se da zona de influência comercial do Rio de Janeiro, que é a base mais firme de sua própria influência política, indispensável na Federação.

Ora, no desdobramento destes vários temas, certo, uma crítica agressiva encontraria uma ou outra data deslocada, ou algum raro acontecimento mal-definido; mas, sobre estes deslizes secundários paira um largo conhecimento da nossa vida, alentado pela fervente simpatia com que nos acompanha, de longe, esse modesto trabalhador.

E quem quer que leia La Question de limites entre Brésil et la République Argentine (1893); ou a notícia acerca de Quelques fleuves brésiliens (1901), onde se sumaria a história dos afluentes amazônicos meridionais, do Javari ao Purus; ou La Question de l’Acre (1904), onde se expõe o desfecho da nossa velha contestação com a Bolívia, desenhando-se os antecedentes e as consequências imediatas do Tratado de Petrópolis; ou, ainda, Les Travaux de transformation de la ville de Rio de Janeiro et la construction du port (1905); quem quer que os leia não justifica apenas a entrada do sr. F. A. Georlette neste Instituto; admira-se de que ela se não tenha efetuado há mais tempo. Sala das Comissões, 9 de setembro de 1908. — Euclides da Cunha, relator. — Orville A. Derby. — Barão Homem de Mello. O parecer é aprovado e vai com a proposta à Comissão de Admissão de Sócios, sendo o relator o dr. Miguel Joaquim Ribeiro de Carvalho

Como citar
CUNHA, Euclides da. Parecer sobre Fernando Augusto Georlette. Ingressso no IHGB, 9 de setembro de 1908. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 9 set. 1908, pp. 540-3.