Correspondência ativa de 1903

Sumário

S. Paulo, 6 de janeiro de 1903

Amo. sr. Gustavo Massow

Saúdo-o. Escrevo-lhe de S. Paulo, de onde seguirei hoje para Lorena. Aceito a sua proposta. Cedo pela quantia de Rs. 1.600$000 os meus direitos à 2ª edição dos Sertões sem aguardar o resultado definitivo da venda e neste sentido aguardo a sua resposta, em Lorena. De acordo ainda com o que aí combinamos (isto é, estar a casa pronta a ceder-me 20 ou 25 livros sem que isto influa no nosso convênio) peço-lhe enviar — registrados — um exemplar dos Sertões a cada um destes destinatários:

1º — Ramalho Ortigão — Academia Real de Ciências — Lisboa.
2º — Cândido de Figueiredo — Lisboa.
3º — Instituto Histórico e Geográfico da Bahia — Cidade da Bahia.
4º — Revista do Grêmio Literário da Bahia — Cidade da Bahia.
5º — General Bartolomeu Mitre — Buenos Aires.
6º — Raimundo Teixeira Mendes — Centro Positivista — Rio de Janeiro.

Estes volumes devem ser encadernados e oferecidos pelos editores em meu nome. Como não posso, de pronto, lembrar outros nomes, peço-lhe remeter-me dez (cinco encadernados e 5 brochados), de onde os enviarei ao seu destino.

O sr. Rotschild mandará hoje para aí um número do Comércio com um parecer do dr. Afonso Celso sobre os Sertões.

Aguardando a sua resposta em Lorena, subscrevo-me amo. ato. cro. obrdo.

Euclides da Cunha

Lorena, 26 de janeiro de 1903

Escobar, estranho o teu longo silêncio… Mas escrevo-te para te enviar um pesaroso abraço lembrando a morte daquele bom, jovial e esplêndido moço, o João Escobar, estupidamente arrebatado à vida quando poucos eram tão dignos dela: forte, sadio, franco, leal, generoso, e o grande coração largamente aberto para o bem. E foi o coração que o matou! Tive ao saber da notícia uma indignação contra ISTO, a organização singular desta vida — permitindo que se acabe de repente um homem daqueles — uma grande alma num organismo de titã, e deixando que por aí se arrastem não sei quantos sujeitos que desvivem, larvados de moléstias e de mazelas.

Foi com certeza, o sentimento que também tiveste.

Enfim… vamos nos subordinando à falta de lógica, aos permanentes absurdos e aos desconchavos deste planeta que certamente está errado, palmarmente errado, na ordem mora e na ordem física. E guardemos do bom amigo uma recordação saudosa, porque ele era digno da maior estima.

Continuas no refúgio da fazenda, soube-o pelo Humberto, com quem viajei há dias de Jacareí a S. Paulo. Sempre o mesmo aquele magnífico rapaz.

Quem me parece singularmente mudado é o Valdomiro. Não foi só o único conhecido (não posso infelizmente dizer: amigo) que nem um cartão me enviou pelo nascimento dos Sertões — como num artigo de hoje (belo artigo sob o título Eu, no sertão) alfinetou-me de leve numa alusão longínqua. A coisa doeu-me porque sempre fiz do teu Valdoro um juízo verdadeiro — e ninguém lhe fez favor considerando-o a mais brasileira organização literária que possuímos. É possível, porém, que haja no que penso uma hiperdesconfiança de caboclo. Deus queira que sim…

Quando vens a S. Paulo?

Que diabo! A vida é hoje triste, no Brasil. Que ao menos se tenha compensação de ver de quando em vez um rosto amigo. Se tiveres de ir em princípios de fevereiro, dias 6 ou 7, — lá me encontrarás.

Recomenda a todos os teus o velho amo.

Euclides

Lorena, 6 de fevereiro de 1903

Pethion de Villar

Saudando-o e enviando-lhe um abraço por intermédio do meu bom tio José, portador desta. E venho lembrar-lhe uma velha promessa, feita aí, quando os Sertões eram apenas um projeto: traduzi-lo em francês. Se quiser fazê-lo cedo-lhe todos os direitos, abrindo mão de todos os livros materiais que disto me possam advir; e estou pronto a firmar qualquer compromisso escrito, nesse sentido.

Desejo porém conhecer a sua impressão pessoal a respeito daquelas páginas — embora sejam elas fracas demais para enquadrarem a grandeza dessa Bahia que é também, um pouco, a minha terra.

Creia sempre na mais alta consideração e estima do patrício e amo.

Euclides da Cunha

Lorena, 17 de fevereiro de 1903

Meu ilustre mestre e amo. dr. Cruls. Recebi ontem, ao chegar de viagem a sua prezada carta e apresso-me em respondê-la. Recebi o seu valioso trabalho sobre o Clima do Rio de Janeiro e tenho bem segura a lembrança de que imediatamente lhe escrevi, agradecendo. Vejo agora que se extraviou a minha carta. Renovo por isto os agradecimentos.

Quanto ao seu juízo sobre os Sertões, tenho-o, e nem era preciso dizê-lo, na mais alta conta. Sinto-me verdadeiramente feliz notando que o meu livro, em que a sinceridade de pensar substitui outros requisitos que não possuo, vai cativando a simpatia dos melhores espíritos e dos melhores corações. Junto por isto a sua carta a outras que aqui estão, formando a melhor crítica ao meu trabalho.

Creia sempre na mais elevada consideração e grande estima do antigo discípulo, — amo. ato. amoor.

Euclides da Cunha

Lorena, 19 de fevereiro de 1903

Meu Pai

Desejo-lhe saúde e felicidades.

Nós vamos indo bem, sem novidade, continuando eu com a minha engenharia precipitada, às voltas sempre com uma quantidade de trabalho que não diminui nunca. Felizmente, de vez em quando lá vem uma compensação a esta vida pouco invejável. Ontem, por exemplo: recebi uma carta do Laemmert declarando-me que é obrigado a apressar a 2ª edição, já em andamento, dos Sertões, para atender a pedidos que lhe chegam até de Mato Grosso — e aos quais não pode satisfazer por estar esgotada a 1ª. Isto em dois meses! Agora é que eu vejo como fui tolo em celebrar o contrato que fiz! Provavelmente terei uma ninharia pela 1ª edição já esgotada. Mas nem nisto falaram ainda os bons patrões que espontaneamente procurei. O que houver a respeito lhe comunicarei logo. Estimo a 2ª edição, principalmente porque sairá correta, destruídos os muitos erros de revisão da 1ª.

Manda-me dizer quando pretende ir a S. Paulo de modo que eu possa dispor as coisas para nos encontrarmos lá.

Receba recomendações todas e abençoe ao seu filho e amo.

Euclides

Lorena, 20 de fevereiro de 1903

Amo. dr. Cruls

Na carta que há dias lhe escrevi respondendo à que me mandou em 15 do corrente, esqueceu-me dizer-lhe que não lhe mandei, como me cumpria e era do meu desejo, um exemplar dos Sertões, porque quando saiu o livro achava-me em longas viagens, desviado em comissões que me tomavam todo o tempo.

Escreveu-me agora a casa Laemmert, comunicando-me que sairá breve a 2ª, estando esgotada a 1ª. Cumprirei então esse dever com a vantagem de mandar-lhe um volume mais correto, sem os deslizes de revisão que têm os atuais. — Creia sempre na maior consideração e estima do antigo discípulo.

Amo. e cro. obro.
Euclides da Cunha

P. S. — Alimento há dias o sonho de um passeio ao Acre. Mas não vejo como realizá-lo. Nestas terras, para tudo faz-se mister o pedido e o empenho, duas coisas que me repugnam. Elimino por isto a aspiração — é que talvez pudesse prestar alguns serviços.

Euclides

Lorena, 25 de fevereiro de 1903

Meu Pai

Desejo-lhe felicidades. Respondo a sua carta de 23. Estive no Rio — e modifico um pouco o que disse sobre os editores dos Sertões. Pelas contas que vi, as despesas foram, de fato, grandes — de sorte que, divido o líquido, terei um ou dois contos de réis. É possível que seja mais feliz na 2ª edição. Os homens, apesar do que dizem (e nesta terra são fáceis os juízos temerários) me parecem sérios. O que sobretudo me satisfaz é o lucro de ordem moral obtido: a opinião nacional inteira que, pelos seus melhores filhos, está inteiramente do meu lado. Cito, por exemplo, a opinião de um homem que é naturalmente o mais antipático a tudo quanto possa haver de republicano no Brasil, o Visconde de Ouro Preto. Disse-me ontem o dr. Gusmão, numa roda em que estava o dr. Gomes, que a opinião do grande chefe monarquista é esta: Os Sertões são o único livro digno de tal nome, que se publicou no Brasil depois de 15 de novembro. Toda a gente assim pensa. Assim, de qualquer modo lucrei. Venci por mim só, sem reclames, sem patronos, sem a rua do Ouvidor e sem rodas. E dado esse primeiro movimento, continuarei, se o permitir a engenharia ingrata e trabalhosa.

Peço-lhe dar lembranças ao Otaviano e à Adélia e abençoe ao seu filho e amo.

Euclides

Lorena, 27 de fevereiro de 1903

Amigo dr. Araripe Júnior,

Recebi o seu cartão e aguardo ― nem imagina com que ansiedade! ― o seu juízo sobre os meus Sertões.

Na véspera havia lido o seu último artigo sobre os “Comentários” da nossa Constituição Federal, do dr. João Barbalho, e, francamente, ali notei, sob um aspecto inteiramente novo, ajustado ao destino dos povos americanos, a doutrina, sem número de vezes discutida e falseada, de Monroe.

Mas o que sobretudo me impressionou foi o desassombro, a magnífica rebeldia de um espírito em plena insurreição contra o nosso sentimentalismo mal educado e estéril. Considero o paralelo, ou melhor, o contraste lucidamente exposto, entre as duas expansões, a teutônica e a ianque, como raio de uma visão que nos últimos tempos mais se tem dilatado no perquirir o destino superior da civilização.

Sou um discípulo de Gumplowicz, aparadas todas as arestas duras daquele ferocíssimo gênio saxônico. E admitindo com ele a expansão irresistível do circulo singenético dos povos, é bastante consoladora a ideia de que a absorção final se realize menos à custa da brutalidade guerreira do “Centauro que com as patas hípicas escarvou o chão medieval” do que à custa da energia acumulada e do excesso de vida do povo destinado à conquista democrática da terra.

Não calculo até que ponto se possa aceitar o seu otimismo sobre a hegemonia norte-americana. Mas, dado mesmo que ele falhe por completo, e que o malsinado imperialismo ianque se exagere até a posse dos países estranhos, ― de que nos valeriam lamúrias de superstições patrióticas?

Vi no seu artigo um significado superior, sugerindo uma medida prática; subordinados à fatalidade dos acontecimentos, agravados pela nossa fraqueza atual, devemos antes, agindo inteligentemente, acompanhar a nacionalidade triunfante, preferindo o papel voluntário de aliados à situação inevitável de vencidos.

É o pensar dos que não desejam ser amigos ursos da Pátria, embora atraindo a pedrada patriótica dos que por aí, liricamente, a requestam numa adorável inconsciência de perigos que a rodeiam.

E julga-se feliz com esta perfeita uniformidade de vistas, o seu patrício admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 1º de março de 1903

Meu caro Borba

Recebi a tua carta sobre a demora das despesas. Que fazer? Se receberes até o dia 3 deste, manda-mas. Se não, espere-me aí entre os dias 6 e 10. Tão largo intervalo faço-o porque ao chegar, ontem, do Bananal, recebi um telegrama da morte, num escarro de sangue. Felizmente até agora não sei reproduziu. Mas preciso ser cauteloso.

Adeus. Para os Petrônios de que falas, a tua verve valente é bem suficiente. Enterra-lhes no cangote e farpa aguda da ironia.

Euclides da Cunha

Lorena, 9 de março de 1903

Dr. Araripe Júnior

Cheguei de S. Paulo onde li o magistral artigo sobre Os Sertões e posso escrever-lhe desafogadamente porque não transmito a minha impressão, mas a de todos que sabem ler naquela cidade.

O seu artigo fora anunciado por um telegrama vindo para o jornal da tarde A Plateia. O Jornal era esperado. Às dez horas da noite tinha-o lido quase toda a roda literária paulista e às dez e meia eu saí da redação do Estado de S. Paulo com o enorme estonteamento de um recruta transmudado repentinamente num triunfador.

Compreendi então quanto é inerte (na significação que damos em mecânica à palavra) a opinião, mesmo entre espíritos cultos; absolutamente passiva, como a cera, um molde admirável para corporizar o pensamento dos eleitos.

Porque, no dia seguinte, eu ― que até então era um engenheiro-letrado, com o defeito insanável de emparceirar às parcelas dos orçamentos as idealizações da Arte era um escritor, apenas transitoriamente desgarrado na engenharia. A sua grande generosidade, a sua honrosíssima simpatia, garantidas ambas por um espírito robusto, impuseram-me ― libertando-me do aspecto dúbio, meio profissional, meio artista, que me tornava um intruso em todas as carreiras.

Nem sabe quanto lhe devo…

Além disto aquela análise recorda a crítica reconstrutora de Macaulay.

A significação histórica do grande agitador sertanejo que delineei apenas, ajustando-se à escola antropológica, aparece mais nítida, explicada pelas circunstâncias especiais do meio que não tive tempo de conhecer e pelo caráter essencial do indivíduo que não apreendi com segurança, dadas as causas perturbadoras que radicavam a minha observação.

Ao chegar encontrei reclamações de empreiteiros que me obrigam a seguir já, em viagem. ― Até muito breve, porém.

Creia sempre no patrício e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 12 de março de 1903

Dr. Araripe Júnior

Chego de viagem; fantástica viagem em que, rompendo pelos caminhos deste velho recanto de S. Paulo, eu fui bater na Bahia e no século XVII… É que o trole me conduzia a Silveiras e a Areias, enquanto o meu companheiro de viagem, o infernal Gregório de Matos, “um diabo passado por crivo de fios aristofanescos trançados com luxúria por mãos de feiticeiras”, suplantando o gordo empreiteiro que gaguejava ao lado não sei mais que estafantes conceitos sobre um orçamento ― o estupendo Homero dos lundus, arrebatava-me num prodigioso salto mortal do espírito sobre dois séculos, para a grande matriz das nossas tradições. E lá segui com ele, embetesgado nas vielas da velha capital… Belo sonho! Um dia estranho de vilegiatura ideal… Por uma evocação, exagerada talvez, eu vi a vida tumultuária da Arcada original dos Capadócios, nos velhos tempos e em plena vernação dos seus atributos característicos. E foi num verdadeiro estonteamento ― entre risos, rasgados de violas, dolências de modinhas, saracoteios de sambas, e, aqui, passando entre serpentinas e cadeirinhas adamascadas, ali acotovelando reinóis recém-chegados ou esbarrando num volver de esquina com o frívolo Rocha Pita, contemplando de relance o padre Damaso, evitando, adiante, o feroz “Braço de Prata”, saudando mais longe o previdente Lancastre ― que eu vi pela primeira vez o terrível trombeteiro de má morte, o vilanaz Aristófanes das mulatas.
Que ressurreição e que figura!

E quando o pobre velho me desapareceu, afinal, obscuramente, num engenho de Pernambuco, toda a sua ironia de fogo e as suas rimas cauterizantes e as suas risadas vingadoras extinguiram-se também, de chofre.

É uma vida a que se assiste entre risos e comenta-se com austeridade. Porque o que ressalta, sobrepujando toda a sua desenvoltura pagodista ― é o eterno martírio dos predestinados.
Mais do que o homem, biologicamente falando, Gregório de Matos foi um admirável órgão social quase passivo, feito uma alavanca, cuja força eram as próprias forças coletivas: uma máquina simples em que se corporizaram muitas tendências da raça nova que surgia. Foi “heroi” na alta significação dada à palavra pelo dramático Carlyle: prefigurou, fundindo-se na sua individualidade isolada, muitos aspectos de um povo.

E passou pela vida obedecendo à fatalidade mecânica de uma resultante intorcível: incorrigível, rebelde sempre à visão estreita dos que pensavam morigerá-la, como se houvesse preconceitos ou regras para estes avant-coureurs das nacionalidades, títeres privilegiados, arrebatados pelas leis desconhecidas da história. Foi um grande sacrificado o desenvolto folgazão! E maior que os seus êmulos, de Juvenal a Bocage, a sua sátira, em que pese ao tom ferocíssimo e maligno, pertence-lhe menos do que às rebeldias nascentes e relaxamentos inevitáveis de uma sociedade em que se chocavam os vícios de um povo velho, agravados pela “bebedeira tropical” e os instintos inferiores de duas raças bárbaras.

Desta alquimia horrorosa, tendo como reagentes o deslumbramento solar, a canícula mordente e a terra fecunda, só podia surgir naquela retorta da Bahia desmedida aquele precipitado.
Foi tão natural e espontâneo que ainda não se extinguiu. Difundiu-se em dois séculos, e aí está, impressionante, nesta adorável capadoçagem nacional que atenua em boa hora a nossa melancolia de semibárbaros…

Mas noto a tempo o desgarrão que me desorienta, escrevendo, rápidas, estas linhas, tomando-lhe o tempo e expondo aí, desalinhadas e em tiagrante, a impressão ou antes uma das impressões que me deixou seu belo livro. Vou relê-lo e talvez melhor o compreenda.

Recebi o seu cartão. Não devia surpreendê-lo o efeito do artigo. A sua ação intelectual, afirmo-o, e confirmam-me algumas cartas que a respeito recebi, ― é muito maior do que julga.
Pretendia falar sobre o notável mimetismo psíquico da obnubilação exposto no livro com tanta clareza. Mas onde iriam parar os meus orçamentos e os meus projetos e os meus empreiteiros, se eu firmasse a pena nesta discussão?

Até breve, e creia sempre na alta consideração e estima do patrício e admirador

Euclides da Cunha

Lorena, 16 de março de 1903

A Henrique Coelho, bom e distintíssimo companheiro dos bons tempos saúda, e agradece o belo presente do livro A Constituição de 1891 e a Constituinte de 1901, que lerá com a máxima atenção e a mais decidida simpatia.

[Cartão de visita. Impresso: Euclides da Cunha]

Lorena, 16 de março de 1903

Dr. João Ribeiro

Saúdo desejando-lhe felicidades.

Aqui recebi as Obras poéticas de Cláudio Manuel da Costa com a gentilíssima dedicatória que aprouve a sua generosidade fazer-me, prefigurando-me uma posição na qual eu nunca cogitei por ser tão contraposta à rudez profissional a que me fui, bem a contragosto, me afeiçoando.

Penso que a nossa Academia não ganhará grande coisa com a minha entrada. Sou um sacrificado a uma carreira que entre nós se faz à custa do olvido quase sistemático de todas as noções teóricas longamente adquiridas, porque se atém à prática ronceira imposta pela nossa atividade rudimentar, sem nada que recorde a opulência industrial e artística de outras terras.

E como em má hora, obediente a minhas tendências de nômade, abracei francamente a engenharia ativa, entro a desconfiar que já estavam embotadas as faculdades que acaso possui para aprender a dominar assuntos de uma ordem mais elevada e ampla.

Apesar disto não posso definir-lhe a ufania, o contentamento real com que aceito o título de seu “futuro colega de Academia”.

Não tenho outro melhor, nem mesmo igual neste país em que o parasitismo se alastra até às mais simples noções da ciência importada, e onde só há verdadeira autonomia de viver entre alguns abnegados que se devotam à guarda das nossas tradições e à luta pela formação de um espírito nacional desfalecido ou ausente permanentemente invadido pelas tendências de outras raças mais que fortes que nos cercam.

Pensando assim, seu eu por uma falsíssima e revoltante modéstia inventasse agora não sei quantos adjetivos deprimentes para me parecer inferior ao lugar que tão nobremente me aprontou, faria figura covarde que se mutila para não marchar para a batalha.
Não. Surpreendido embora, atendo ao chamado e apresto-me também para “nossa guerra dos cem anos”.

E creia que não é só como discípulo e admirador, mas também como irmão, irmão em armas, que lhe envio um abraço.

Euclides da Cunha.

Lorena, 22 de março de 1903

Dr. Lúcio de Mendonça
Recebendo a sua carta no momento de seguir de viagem, não quero, entretanto, demorar-lhe a resposta tal a satisfação despertada pela sua leitura.

Além disto, ela vem de uma terra sagrada para mim, essa alpestre Teresópolis, onde passei os mais verdes anos e me criei; de sorte que a adorável vila forma o cenário mais longínquo das minhas recordações e das minhas saudades. É natural que daí só me venham emoções superiores; e nenhuma maior, eu poderia sentir que a transmitida pela sua carta onde vejo um aplauso sincero menos ao valor que acaso possa ter o meu livro que aos sentimentos o inspiraram.

Infelizmente, porém, julgo que não corresponderei às esperanças que ele sugere e que o sr. tão bondosamente enuncia. A minha engenharia rude, engenharia-andante, romanesca e estéril, levando-me em constantes viagens através do dilatado distrito, destrói a continuidade de quaisquer esforços na atividade dispersiva que impõe. Aí está um colega, e querido amigo, Bueno de Andrada, que a conhece bem sob os seus vários aspectos desde o estilo aleijado dos ofícios à alma tortuosa dos empreiteiros. Entretanto, com uma teimosia incoercível, eu vou alinhando, através da secura dos orçamentos, novas páginas de uma livro que será tardio, ─ feito em minutos de folga, e sem a inteireza emocional que a Arte exige.

Em virtude mesmo desta vida fatigante, esqueceu-me mandar-lhe, e tal incorreção involuntariamente a cometi para com outros distintos patrícios, ─ um exemplar dos Sertões. Corrigirei a falta quando estiver pronta a 2ª edição, com a vantagem de oferecer um livro, sem os deslizes de revisão que existem nos da 1ª.

Desejando-lhe felicidade, peço que acredite na alta consideração do seu compta. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 30 de março de 1903

Amigo dr. Araripe Júnior

Chego de viagem e tenho a felicidade de encontrar a sua carta, de 23, que respondo. Antes de tudo, novos agradecimentos pela 2ª parte do estudo sobre os Sertões. Divergimos apenas num ponto: notei que é maior que a sua a minha simpatia pelos nossos extraordinários patrícios sertanejos. Quanto à História da Revolta ─ é ainda um plano. Só poderei iniciá-la quando me aparecer o primeiro dia de folga nesta vida trabalhosa. Além disso, levado pelo dever profissional a misteres tão diversos, terei de lutar muito para considerar aquele assunto. Se o artista é sobretudo um indivíduo empolgado por uma impressão dominante, estou nas mais impróprias condições para isto.

Shakespeare não faria o Hamleto se tivesse, em certos dias, de calcular momentos de flexão de uma viga metálica; nem Miguel Ângelo talharia aquele estupendo Moisés, tão genialmente disforme, se tivesse de alinhar, de quando em vez, as parcelas aritmeticamente chatas de um orçamento. E eram gênios.

Por isso mesmo, escrevendo há dias ao dr. João Ribeiro, agradecendo a remessa das Obras poéticas de Cláudio Manuel da Costa ao futuro colega da Academia, disse-lhe sinceramente que não me julgava aparelhado para aquela posição.

Eu creio, porém, que sairei breve desse desvio morto da Engenharia, sem descarrilhar; aproveitarei o primeiro triângulo de reversão que aparecer, e avançarei na minha verdadeira estrada.

Revendo a 2ª edição do meu livro, chamei, em nota, a atenção do leitor para o “Reino Encantado”, a propósito do caso da Pedra Bonita. E faria a chamada antes, se conhecesse antes aquele romance. Penso que o senhor é injusto no aniquilar aquele seu trabalho, talvez porque o tenha escrito dia a dia para rodapé de um jornal. Sem lisonja, considero-o. Pena é que tivesse abandonado aquela trilha. Não temos romances históricos, sendo a nossa vida nacional tão farta de episódios interessantíssimos e originais. A este propósito, estou quase a lhe dar o mesmo conselho que me deu há poucos dias, em carta, o dr. Lúcio de Mendonça: aviventar com a fantasia criadora um dos mil incidentes da nossa história. Temos quadros e sucessos que fariam o delírio de Dumas e Walter Scott.

Aí está, para citar só um exemplo, esta arrebatadora figura de d. Pedro I, lindíssimo tipo de um rei-cortesão da liberdade, ─ a desafiar os mais ardentes artistas. E deixamo-lo na eterna mudez da estátua do Rocio… Iria longe se lhe dissesse quanto pretendia dizer, tomando-lhe pecaminosamente o tempo precioso. Lá para abril pretendo ir até aí. Hei de procurá-lo e conversaremos melhor. Aqui fico sempre ao seu dispor, como discípulo muito amigo e admirador.

Euclides da Cunha

Lorena, 30 de março de 1903

Amigo dr. Araripe Júnior

Chego de viagem e tenho a felicidade de encontrar a sua carta, de 23, que respondo. Antes de tudo, novos agradecimentos pela 2ª parte do estudo sobre os Sertões. Divergimos apenas num ponto: notei que é maior que a sua a minha simpatia pelos nossos extraordinários patrícios sertanejos. Quanto à História da Revolta ─ é ainda um plano. Só poderei iniciá-la quando me aparecer o primeiro dia de folga nesta vida trabalhosa. Além disso, levado pelo dever profissional a misteres tão diversos, terei de lutar muito para considerar aquele assunto. Se o artista é sobretudo um indivíduo empolgado por uma impressão dominante, estou nas mais impróprias condições para isto.

Shakespeare não faria o Hamleto se tivesse, em certos dias, de calcular momentos de flexão de uma viga metálica; nem Miguel Ângelo talharia aquele estupendo Moisés, tão genialmente disforme, se tivesse de alinhar, de quando em vez, as parcelas aritmeticamente chatas de um orçamento. E eram gênios.

Por isso mesmo, escrevendo há dias ao dr. João Ribeiro, agradecendo a remessa das Obras Poéticas de Cláudio Manuel da Costa ao futuro colega da Academia, disse-lhe sinceramente que não me julgava aparelhado para aquela posição.

Eu creio, porém, que sairei breve desse desvio morto da Engenharia, sem descarrilhar; aproveitarei o primeiro triângulo de reversão que aparecer, e avançarei na minha verdadeira estrada.

Revendo a 2ª edição do meu livro, chamei, em nota, a atenção do leitor para o “Reino Encantado”, a propósito do caso da Pedra Bonita. E faria a chamada antes, se conhecesse antes aquele romance. Penso que o senhor é injusto no aniquilar aquele seu trabalho, talvez porque o tenha escrito dia a dia para rodapé de um jornal. Sem lisonja, considero-o. Pena é que tivesse abandonado aquela trilha. Não temos romances históricos, sendo a nossa vida nacional tão farta de episódios interessantíssimos e originais. A este propósito, estou quase a lhe dar o mesmo conselho que me deu há poucos dias, em carta, o dr. Lúcio de Mendonça: aviventar com a fantasia criadora um dos mil incidentes da nossa história. Temos quadros e sucessos que fariam o delírio de Dumas e Walter Scott.

Aí está, para citar só um exemplo, esta arrebatadora figura de d. Pedro I, lindíssimo tipo de um rei-cortesão da liberdade, ─ a desafiar os mais ardentes artistas. E deixamo-lo na eterna mudez da estátua do Rocio… Iria longe se lhe dissesse quanto pretendia dizer, tomando-lhe pecaminosamente o tempo precioso. Lá para abril pretendo ir até aí. Hei de procurá-lo e conversaremos melhor. Aqui fico sempre ao seu dispor, como discípulo muito amigo e admirador.

Euclides da Cunha

Santos, 5 de abril de 1903

Amigo Martim Francisco

Felicidades! Aí vai o Armitage. Obrigadíssimo. O Saint-Hilaire depois; preciso ainda das lições do extraordinário observador que olhou com tanto carinho as coisas de nossa terra.

Em breve hei de lhe levar o belo livro em que Liebig desvenda, de modo desapiedado e convincente, o diletantismo filosófico de Francisco Bacon ─ o mais ousado e feliz dos charlatães do século XVII.

Recado do amo. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 26 de abril de 1903

Escobar

Saudo-te

Recebi afinal a carta do Laemmert ─ e tenho presente a ordem de Rs. 2:198$750 ─ líquido que coube da 1ª edição dos Sertões. À vista disso escrevi hoje ao José Augusto, pedindo-lhe dizer-me para onde enviar a quantia de 219$875, que lhe é devida pelo nosso contrato verbal. Como temo, entretanto, que por qualquer circunstância não receba ele a carta ─ peço-te torná-lo ciente do caso. E escreva-me. Lembranças aos teus. Do

Euclides

P.S. ─ O Lafaiete roeu-me, terrivelmente, a corda. Qual revistas do Instituto… qual nada!

Engraçado!

Euclides

Lorena, 28 de abril de 1903

Meu grande amo dr. Egas Moniz

Saúdo-o, desejando-lhe felicidades e a toda a Exma. família.

Recebi pelo Arnaldo o seu gentilíssimo cartão, que me veio despertar saudades dos poucos mas inolvidáveis dias que aí passei, nessa adorável terra da Bahia. A sua opinião sobre os Sertões, guardo-a entre as que mais me podem enobrecer. Tenho aqui, em roda, na quietude do meu gabinete, uma esplêndida sociedade silenciosa de amigos que me falam com a eloquência das suas cartas animadoras e sinceras. Faltava-me a frase triunfal e ardente de Pethion de Villar. Tenho-a agora. Creio que está nestas expressões generosas a melhor crítica do meu livro. Em que pese a sua feição combatente, tracei-o com uma enorme Piedade pelos nossos infelizes patrícios sertanejos. É um livro destinado aos corações. Devem compreendê-lo admiravelmente os poetas e os bons, se não vai nesta conjunção dispensável redundância.

Aguardo o que está escrevendo. Tenho o Diário, que me manda o tio José.

Pela Revista do Grêmio acompanho o seu notável esforço no propagar o espírito da nossa terra entre outros povos. E admiro-lhe a abnegação ante tarefa de tal porte. Não deixe de mandar-me logo qualquer tradução que faça dos excertos escolhidos, dado que a rudeza do meu estilo se possa afeiçoar aos encantos de outra língua.

E escreva sempre a quem é há muito tempo seu admor. mto. amo.

Euclides da Cunha

Lorena, 29 de maio de 1903

Max Fleiuss

Respondo a carta de V.

Não recebi o ofício do sr. Raffard notificando-me a eleição para o honradíssimo cargo de sócio correspondente do Instituto Histórico. Sabendo dela apenas pelos jornais e por algumas cartas de amigos, aguardava a participação oficial para agradecer tão grande distinção, certo entre as maiores que eu poderia desejar tão falto de méritos me considero para a receber.

Tratando de fim principal de sua carta, vacilo em deferir ao seu delicado convite, já pelo diminuto do tempo ─ que as exigências da minha profissão agravam ─ já por me faltarem recursos para apreciar rigorosamente a figura notável do Duque de Caxias, uma vida que, como sói suceder com a de todos os grandes homens, foi um aspecto da nossa própria vida nacional. Ao mesmo tempo, porém, penso que não devo forrar-me ao encargo em que convergem a obrigação de atender a quem tanto me enobrece com o seu conceito e a atração inegável do assunto.

Mas, aceitando-o, só posso contar com a boa vontade e com o amor que dedico ao passado da nossa terra; e como estes atributos não bastam à extensão da tese, temo iludir a expectativa tão favorável que a sua carta revela.

Por isto alvitro uma ligeira variante à minha missão; ao invés de uma “Memória” (porque para isto talvez seja escasso o prazo de que disponho), farei o discurso oficial em nome do Instituto.

Deste modo se tiver a felicidade de lhe dar a amplitude e o valor de uma monografia digna de nota, valerá pela “Memória” em questão, e, no caso contrário, terá menos relevo, se não passar despercebida, a deficiência do meu trabalho. É, como vê, um alvitre prático de quem, fiando muito pouco de seu valor, não quer, entretanto, fugir a tão nobilitador encargo.

Não posso terminar sem lhe agradecer muito o juízo que externou sobre Os Sertões. Obrigadíssimo. Não remeti como desejava, um exemplar ao Instituto porque a 1ª edição se ressente de muitos deslizes de revisão. Estando já pronta a 2ª, que sairá por estes dias, apressar-me-ei em corrigir a falha.

Lamento não conhecer o parecer do sr. Afonso Celso, a que se referiu.

Aguardando as suas ordens, sou com a maior consideração ─ cro. obrmo. ato. admor.

Euclides da Cunha

Junho de 1903

Max Fleiuss

Enviei hoje ao Exmo. sr. comdor. Raffard a resposta ao seu ofício notificando-me a eleição para o cargo de sócio do I. H. G. Brasileiro.
Não foi antes porque ao chegar tive de seguir em viagem urgente, da qual hoje voltei.

Certo da sua proposta relativa ao Centenário de Caxias, renovo o que aí lhe disse: cumprirei o que determina o Instituto, mas sem prazo fixo.

Oportunamente, com mais vagar, lhe escreverei.

Disponha sempre do crdo. obrdo. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 12 de junho de 1903

Meu Pai

Desejo que esta o encontre de boa saúde. Não lhe tenho escrito porque desde o dia 28 do mês passado ando em constantes viagens. Tenho mandado, logo que aqui chegam, as Lectures pour Tours, e ontem um Comércio de S. Paulo. O Laemmert propôs comprar-me desde já por 1:600$000 a 2ª edição dos Sertões que saiu há 3 dias. Aceitei porque preciso de uma entrada do seguro de vida que fiz, e com o que anteriormente recebi paguei as dívidas que tinha.

Além disto, nada perco porque num primeiro livro só se aspira um lucro de ordem moral, e este eu o tive de sobra.

Infelizmente me obrigaram a ser candidato à Academia de Letras com a infelicidade de ter, entre outros antagonistas, o velho autor dos Mineiros da Desgraça, Quintino Bocaiúva, que me derrotará pela certa ─ porque leva para a ação a própria influência política, e levantou-lhe a candidatura o primus inter pares da nossa gente, o barão do Rio Branco. Os poucos votos que eu terei, porém, valerão pela qualidade.

Peço-lhe que dê lembranças nossas a Adélia e Otaviano e abençoe ao seu filho e amo.

Euclides

P.S. ─ Além daquela quantia dão-me, os editores, 45 livros o que eleva a importância da venda que fiz.

Lorena, 12 de junho de 1903

Dr. José Veríssimo

Cumprimento-o, desejando-lhe felicidades e à Exma. família.

A notícia que hoje li, ao voltar de viagem, num Correio da Manhã sobre vários candidatos à Academia, é antes de tudo uma indiscrição de jornalista. Mas tem o valor de libertar-me da vacilação que me tolhia no concorrer àquele lugar. Não posso mais recuar. E sem temer o insucesso inevitável ─ porque o simples fato de ser admitido à concorrência basta a enobrecer-me consideravelmente ─ cumpro o dever de lhe comunicar a minha candidatura, antes mesmo de me dirigir ao presidente da Academia, porque ao sr. devo o favor da apresentação do meu nome, então obscuro, à sociedade inteligente da nossa terra, amparando-o com extraordinária generosidade. (Não veja aí lisonjaria vã; nunca consegui deixar de escrever o que sinto).

Continuo na minha engenharia fatigada e errante ─ e, agora, com a sobrecarga de uma monografia sobre o Duque de Caxias. Felizmente me habituei a estudar nos trens de ferro, nos troles, e até a cavalo! É o único meio que tenho de levar por diante esta atividade dupla de chefe de operários e de homens de letras, visando quase o ideal dessa vida intensa, da qual tratou superiormente o extraordinário Roosevelt no seu último livro.

Sem mais, queira sempre dispor de quem é com muita consideração seu amo ato e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 18 de junho de 1903

Meu caro Max Fleiuss

Cumprimento-o e desejo-lhe felicidades. Há dias enviei ao comendador Raffard dois ofícios em resposta aos que ele mandou sobre a minha entrada para o Instituto e sobre a honrosa missão de que o mesmo me encarregou. Enderecei-os para o Instituto, e, como não designei o local nessa cidade onde é a sede do mesmo, renovo por seu intermédio o aviso temendo que por qualquer circunstância se tenham extraviado. Já estou, nas minhas raras horas de folga, estudando a vida do Duque de Caxias; e como não tenha prazo prefixado para levar adiante a missão penso poder realizá-la satisfatoriamente. Prometi-lhe um exemplar da segunda edição dos Sertões e tenho o maior prazer em oferecer-lho. Não tendo, porém, nenhum aqui, e não querendo demorar-me no cumprimento da promessa, peço-lhe o favor de entregar aos srs. Laemmert & cia. a inclusa carta.

Mando-a certo de que me desculpará a inconveniência do pedido, atendendo à circunstância de me achar longe dessa capital e não saber quando poderei ir até lá. Sem mais, disponha sempre de quem é mto. admor. e amo.

Euclides da Cunha

Lorena, 20 de junho de 1903

Dr. Lúcio de Mendonça

Saúdo-o

Recebi as suas interessantes notas sobre alguns sucessos da Revista. Já estou às voltas com este assunto, mas nunca imaginei que fosse tão sério e tão difícil. Será certamente demasiado o livro que vou escrever. Sobretudo o que vai tornando-se cada vez mais enigmático à medida que o examino é o seu singular protagonista. Que homem! Às vezes figura-se-me um Luís XI, outras um cardeal d. Henrique; ora um gênio mau, ora um tonto que os acontecimentos transfiguram. Afinal hei de o conhecer. E se o sr. tiver quaisquer indicações (mesmo incidentes, que valem muito) dê-mas, com absoluta confiança, se é que terei a felicidade de lhe despertar a mesma simpatia que me inspirou desde o nosso primeiro encontro.

Passando a outro assunto: mantenho a minha candidatura à Academia apesar da derrota inevitável. Hoje respondendo uma carta de Coelho Neto a este respeito perguntei se ele não se recordava de uma sanguinolenta comédia vulgar nos anfiteatros romanos, em que o patrício desfibrado e trôpego, vestindo a armadura e armado até os dentes ia garbosamente se bater com o gaulês desnudo e empunhando uma espada de pau. Serei o gaulês. E será para mim um belo triunfo a derrota em que me ampararão Lúcio de Mendonça, José Veríssimo, Araripe, João Ribeiro, Coelho Neto e Arinos.

Creia na verdadeira estima e elevada consideração do amo. ato. obrdo. admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 21 de junho de 1903

Exmo. sr. Machado de Assis

Tenho a honra de solicitar a V. Exa. A minha inclusão entre os candidatos à vaga existente na Academia de Letras. Certo de uma aquiescência, que por si valerá para mim como o melhor dos títulos, subscrevo-me com a mais elevada consideração.

De V. Exa. ─ cro. mo. ato. e admor.

Euclides da Cunha

S. Paulo, 4 de julho de 1903

Dr. José Veríssimo

Desejo-lhe felicidades e a todos os seus. Recebi ontem uma carta do nosso amigo João Ribeiro, mais animadora quanto ao sucesso da minha candidatura, que já supunha morta. Vou agora escrever aos acadêmicos. Peço-lhe, porém, (e estendendo o pedido aos drs. J. Ribeiro, Araripe e Lúcio de Mendonça) que se recorde da minha situação de engenheiro errante, preso pelos empreiteiros e absorvido em orçamentos, quase sem tempo para curar dos meus próprios interesses. Os outros candidatos, mais folgados e num outro meio, têm elementos práticos de sucesso que eu não posso ter. Aqui, em S. Paulo, ninguém acredita que eles triunfem, ─ mas eu estou convencido do contrário, se me desampararem os bons amigos com que conto.

Aqui cheguei ontem impressionadíssimo com a notícia de estar doente o meu pai; felizmente encontrei novas mais animadoras e penso que não terei de fazer longa viagem ao interior, voltando dentro de dois dias para a minha tranquila Lorena.

Creia sempre na consideração e estima do

Euclides da Cunha
P.S. ─ Já tinha recebido, enviado pelo próprio Instituto, a revista a que o sr. se referiu na sua carta. Realmente lá encontrei valiosos documentos.

Lorena, 6 de julho de 1903

Exmo. sr. Artur Azevedo

Saúdo-o cordialmente. Não sei se chego tarde para pedir o seu voto, que muito valerá à minha candidatura ao lugar atualmente vago na Academia de Letras. Mas faço [o] pedido porque para mim ele significa, sobretudo, o muito apreço que há muito lhe tributo, antes que me cativasse o seu generosíssimo juízo sobre os Sertões.

Creia que sou com toda a consideração seu amo. cro. ato. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 7 de julho de 1903

Exmo. sr. dr. Afonso Celso Júnior

Cumprimento-o desejando-lhe felicidades.

Venho não por obedecer a uma formalidade, mas espontaneamente e com a maior satisfação, solicitar o seu voto à minha candidatura à Academia de Letras, ─ porque o considero entre os que maior brilho darão à minha investidura.

Peço-lhe que creia sempre na elevada consideração do seu compatriota, ato. cro. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 9 de julho de 1903

Exmo. sr. dr. Oliveira Lima

Candidato à cadeira que vagou na Academia de Letras em virtude do lamentável falecimento de Valentim Magalhães, venho solicitar o seu voto, e assim procedo não só por obedecer a praxe estabelecida como pelo reconhecimento do alto valor que o sufrágio de V. Exa. dará à minha investidura.

Sou, com a maior consideração,

de V. Exa. cro. obro. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 9 de julho de 1903

Exmo. sr. barão do Rio Branco

Saudando respeitosamente a V. Exa. tenho a honra de solicita[r] o seu voto na próxima eleição que se realizará na Academia de Letras, para o preenchimento da vaga originada pelo lamentável passamento do nosso distinto compatriota Valentim Magalhães.

Subscrevo-me com a mais elevada consideração.

De V. Exa. Compatriota cro. ato. e verdo.

Euclides da Cunha

Lorena, 10 de julho de 1903

Exmo. sr. Machado de Assis

Tendo tido a felicidade de ser incluído por V. Exa. entre os concorrentes à cadeira que vagou na Academia de Letras em virtude do lamentável falecimento de Valentim Magalhães, e recordando-me das animadoras palavras que me dispensou, e que foram para mim uma grande honra e um grande estímulo, ─ venho solicitar o seu voto em prol da minha candidatura.

Peço-lhe que acredite sempre na mais elevada consideração do seu

Compatriota cro. ato. e muito admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 10 de julho de 1903

Exmo. sr. dr. Salvador de Mendonça

Saudando a V. Exa. tenho a grande honra de solicitar o seu voto à minha candidatura à Academia de Letras.

Não o faço apenas por obedecer à praxe estabelecida, mas principalmente porque reconheço o alto valor que dará à minha investidura o sufrágio de V. Exa.

Acreditai na elevada consideração que lhe tributa o seu comp. cro. ato. e admor.

Euclides da Cunha

Rio, […] julho de 1903

Luar [Raul Pederneiras]

manda-me, pelo palafreneiro, portador deste retângulo, o original da minha fealdade favorecida pelo teu lápis zenital

Euclides

Lorena, 17 de julho de 1903

Exmo. sr. barão do Rio Branco

Apresso-me em responder a carta em que V. Exa. tão generosamente me oferece o honrosíssimo amparo de seu sufrágio à minha candidatura à Academia Brasileira de Letras. E com a mais completa franqueza declaro a V. Exa. que se por acaso eu desejasse qualquer recompensa pelos serviços que tentei prestar à nossa terra, escrevendo Os Sertões, não poderia tê-la maior, mais valiosa e mais digna do que aquela carta, que hei de sempre guardar como um verdadeiro prêmio.

Creia o meu venerando compatriota na elevada consideração e decidido apreço de seu crdo. ato. obrdo. e muito admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 17 de julho de 1903

Dr. Afonso Celso

Saúdo-o e a toda a Exma. família.

Nem sei como responder ao seu delicadíssimo cartão de 10 do corrente. Afirmo-lhe, porém, que ele não me surpreendeu. Ali está, integral, na concisão expressiva do seu cavalheirismo, a nossa antiga generosidade brasileira.

Aceito com verdadeira ufania, na minha rude mão de engenheiro, a sua mão fidalga e imaculada. Somos dois homens igualmente conscientes dos princípios que adotam; e embora estes nos separem, ligamo-nos num plano mais alto: o mesmo amor à nossa terra. E como, ambos, não temos partidos ─ porque o sr., dignamente abraçado aos antigos ideais, foge ao resvaladio das agitações inconscientes que por aí lavram, e eu, ─ abraçado aos princípios republicanos, sou repelido pelos singulares correligionários que da República não querem nem mesmo a rudeza puritana dos yeomen de Cromwell, ─ penso que este apego ao Brasil nos fraterniza na única política séria destes tempos. De sorte que é com legítima satisfação e a mais franca simpatia que me assino ─ confrade amo. ato. e muito admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 24 de julho de 1903

Exmo sr. Artur Azevedo

Saúdo-o desejando-lhe felicidades. Recebi, entregue pelo nosso distinto amigo, cel. Barreiros, a sua gentilíssima carta de 16 do corrente e apresso-me em agradecer-lhe o seu honroso sufrágio. Creia que ele me honra muito, e que é um dos melhores estímulos para que eu persista no aproveitar os momentos de folga de minha engenharia estudando as coisas de nossa terra. Obrigadíssimo.

Já tracei nas primeiras linhas sobre a revolta de setembro, e julgo que não chegarei rapidamente ao fim. (Embora com verdadeira surpresa tenha lido no Correio da Manhã, que o livro já vai para o prelo!)

O assunto, a começar pelo homem extraordinário que inteiramente o domina, é complexo: exige grande serenidade de observação; crítica segura; e permanentes resguardos no acompanhar o curso dos acontecimentos, que as paixões baralharam e perturbaram. Digo-lhe isto porque da bondosa referência que o sr. fez em seus artigos no País, se conclui que também acredita no próximo aparecimento do trabalho. Mas a rapidez seria prejudicial.

Suponho que em princípios de agosto estarei aí. Conversaremos melhor.

Creia sempre na grande estima e maior consideração do seu amo. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 24 de julho de 1903

Escobar

Desejo-te felicidades e aos teus.

Recebi a tua carta; e fico certo de encontrar-te em S. Paulo. Lá chegarei no dia 4 pela manhã. Se não puderes ir à estação do Norte, procura-me na Repartição ao meio dia. Procurar-te-ei no Hotel Bela Vista. Irei provavelmente para o Hotel de França. Quanto à Academia tenho, certos, os seguintes votos: Rio Branco, Machado de Assis, Artur Azevedo, João Ribeiro, Veríssimo, Lúcio de Mendonça, Afonso Celso, Coelho Neto, Filinto, Araripe, Raimundo Côrrea, Garcia Redondo e provavelmente, Oliveira Lima, Laet e alguns outros. Dois, Arinos e Augusto de Lima, que eram certíssimos, ainda não tomaram posse. Como vês ─ se não triunfar tenho em compensação a elite dos nossos homens de talento ao meu lado. Nem quero outra vitória. ─ Sei que os outros concorrentes cavam danadamente, e é possível que algum deles triunfe. Mas… o grande Paul Louis também foi derrotado. Em S. Paulo conversaremos melhor.

Responda-me ─ duas linhas ─ dizendo o dia certo da tua ida ao amo.

Euclides

Lorena, 26 de julho de 1903

Exmo. sr. Machado de Assis,

Cumprimentando-o respeitosamente à Exma. Senhora, apresso-me em agradecer a grande distinção de sua carta de 20 do corrente que hoje li, ao voltar de viagem. Ela não me surpreendeu. Desde o primeiro dia em que tive a felicidade de conhecer pessoalmente a V. Exa. ─ o que para mim foi o complemento de relações bem antigas ─ fiquei sob a impressão de um deslumbramento, ao notar a incomparável bondade e a rara superioridade de coração com que me revestiu a sua nobilitadora estima. O sufrágio que me vai dar será para mim uma consagração.
Subscrevo-me, com a mais profunda estima e elevado apreço, seu amo. e crdo. ato. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 22 de agosto de 1903

Escobar

A tua carta de ontem deixou-me triste. Vejo-te desalentado ─ como se fosses um velho, melancólica palavra que não devias ter escrito ─ porque afinal és tudo menos um decadente ao qual se aplique o termo. Velhos andam por aí muitos ─ alguns de 20 anos! ─ mas não te vejo entre eles.

Sursum corda! Meu bravo companheiro… É até um desaforo esse desânimo. Hás de ir para Santos e hás de lutar, ali, com a mesma nobreza de sempre. Tenha certeza disto. Mas para tal é necessário que vejas as coisas claras e azuis; nada de abatimentos. Tens uma fortuna que não se perde ─ alguns bons amigos. Sou o último deles, mas aqui estou absolutamente ao teu dispor. As cartas, hei de entregar-tas pessoalmente, na Civilização.

Pretendo chegar a S. Paulo no dia 4 de setembro, à noite. Quero encontrar-te na estação do Norte. Não faltes. E escreva-me antes.
Recomenda a todos os teus o amo. firme e de sempre

Euclides

P.S. ─ O diabo é que vou apresentar-te a concorrentes: o Vicente, o Urbano Neves etc. ─ mas neles terás magníficos companheiros. Alguma coisa me diz (e os meus pressentimentos de caboclo nunca me enganam!) que serás extraordinariamente feliz em Santos. Verás…
Para aproveitar o papel aí vão os meus votos seguríssimos para a próxima eleição da Academia: Laet, Lúcio e Salvador de Mendonça, Veríssimo, João Ribeiro, Araripe, Machado, Rio Branco, Silva Ramos, Inglês de Sousa, Artur Azevedo, C. Neto, G. Redondo, Filinto, Luiz Murat, Raimundo Corrêa, e Afonso Celso (17) ─ e Arinos, Augusto de Lima e Martins Jº, estes se tomarem posse antes da eleição.

Como vês se os homens mantiverem o prometido é inevitável a vitória.

Euclides

[À margem]

2º P.S. ─ Antes de vir dê um passeio à ponte para me dar notícias dela.

Lorena, 10 de setembro de 1903

Coelho Neto

o vento sul que aí está destocando as roseiras de Campinas, sacode, neste momento, as palmeiras imperiais da minha melancólica Lorena… e é uma lufada apenas, um fragmento do sudoeste bravo que, a estas horas, se estira e tumultua precipitado nas planuras dos pampas e dos chacos!… O diabo é que ele também me bate nos nervos; e aqui estou doente, a vibrar, a vibrar, à toa como aquelas harpas da gongórica peroração de Mont’Alverne. Isto não me impede, porém, de te responder logo, ─ ainda que o faça impelido por um interesse. De fato, sendo a eleição da Academia no dia 15 (disse-me isto Machado de Assis, quando estive no Rio), temo que alguns imortais não votem, distraídos pelos acontecimentos; e como não ficaria bem lembrar-lhes tal coisa, peço-te que escrevas a respeito aos que forem mais íntimos. Estou longe, a braços com esta profissão, e a minha candidatura ainda pode soçobrar. Mando-te a lista dos votos com que conto com absoluta confiança: o teu e os do Lúcio, Salvador, Araripe, Machado, Rio Branco, Afonso Celso, Inglês de Sousa, Silva Ramos, Artur, Veríssimo, João Ribeiro, Garcia, Filinto, Raimundo, Murat e Arinos (se tomar posse).

Jás vês que há desgraçadamente nesta carta um móvel de egoístico. Contingência humana.

Adeus; até breve. Recomenda-me a todos os teus.

Abraça-te fraternalmente

Euclides da Cunha

Lorena, 10 de setembro de 1903

Dr. Afonso Arinos

Saúdo-o e Exma. sra.

Hoje ao chegar de viagem li no Correio da Manhã que se vai marcar o dia para a sua posse, e eleição da Academia. Lembrei-me então da minha candidatura, da qual me tenho descuidado para atender às exigências da profissão. Peço-lhe, por isto, que me ajude a levá-la por diante ─ para o que basta que não faltem os que prometeram o voto. Infelizmente não posso ir até aí para isto, e principalmente, para ouvir o seu discurso.

Partirei amanhã em nova viagem. Mas sigo tranquilo confiando no sr. e nos outros bons amigos que aí estão.

Até breve; creia sempre no

Euclides da Cunha

Lorena, 19 de setembro de 1903

Escobar

Aqui recebi a tua carta de ontem.

Ontem chegou o Bormann. Obrigadíssimo.

Responda-me dizendo quando, provavelmente, podes vir. Não tens por aí notícias da minha candidatura?

Não sou mais extenso porque vou seguir já para Lambari onde voltarei hoje mesmo.

Até breve ─ Abraça-te o amo.

Euclides

P.S. ─ Não recebi ainda o Senna Madureira ─ e o outro. Talvez venham à tarde.

Euclides

Lorena, 22 de setembro de 1903

Meu Pai

Desejo que esta o encontre bem de saúde.

Apresso-me em comunicar-lhe que fui eleito ontem para a Academia de Letras ─ para a cadeira do seu grande patrício, Castro Alves. Assim, o desvio que abri nesta minha engenharia obscura, alongou-se mais do que eu julgava. É ao menos um consolo nestes tempos de filhotismo absoluto, verdadeira idade de ouro dos medíocres. Tive eleitores como Rio Branco e Machado de Assis. Mas não tenho vaidades: tudo isto me revela a boa linha reta que o sr. me ensinou desde pequeno. Hei de continuar nela. Mande sempre notícias.

Filho e amo.

Euclides

P.S. ─ No meu discurso de posse hei de recitar alguns versos de um velho poeta M. R. P. C. ─ que acompanharam as primeiras edições das Espumas Flutuantes.

Lorena, 22 de setembro de 1903

Exmo. sr. Machado de Assis

Cumprimentando-o e à Exma. família, apresso-me em lhe agradecer a extrema gentileza de seu telegrama de ontem, dando-me a mais agradável das notícias. Creia o meu distintíssimo patrício que no novo posto a que fui elevado (e não sei de nenhum outro mais elevado, neste país) me encontrará sempre assistido de uma boa vontade sem limites para obedecer à lúcida direção que está imprimindo ao movimento intelectual da nossa pátria. ─ Sempre com a mais alta consideração e maior estima, sou seu amo. crdo. muito admor.

E. da Cunha

Lorena, 23 de setembro de 1903

Escobar

Saúdo-te. Recebi a tua carta e o telegrama. Obrigadíssimo. Surpreendeu-me o triunfo! E aqui estou cheio de gratidão pelos nossos dignos compatriotas que tão generosamente levantaram o meu nome obscuro. Recebi os livros. Quando vens? Não posso ir lá agora. Só em princípios do mês. Leste o belo artigo da Gazeta sobre os Sertões? Não diria nada a Tribuna, de Alcindo Guanabara? No caso afirmativo peço-te a envies. Escrevo atrapalhadamente, tendo que responder a não sei quantas cartas e telegramas.

Um embrulho…

Responda ao velho amo. obrmo.

Euclides

Lorena, 23 de setembro de 1903

Meu caro Borba

nas aperturas da crise não tenho remédio senão te incomodar pedindo-te que me mandes logo as diárias de Agosto.

Perdoa-me, meu velho amigo; lembra-te da minha profunda anemia algibeiral

E adeus.

Responda ao

Euclides

Rio, 10 de outubro de 1903

Exmo. sr. dr. Rodrigo Otávio, dmo. 1º Secretário da Academia Brasileira de Letras. ─ Agradecendo a V. Exa. a honrosa comunicação que me fez em data de 25 de setembro p. findo, relativamente à minha eleição de membro dessa ilustre corporação, para a cadeira de Castro Alves, vaga pela morte de Valentim Magalhães, declaro que a recebi com a maior satisfação, ficando inteiramente ciente dos grandes e nobilíssimos deveres imanentes a tão elevado cargo.

Aproveito a oportunidade para apresentar a V. Exa. os protestos da maior estima e consideração, subscrevendo-me ─ confrade obrdo. e muito admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 14 de outubro de 1903

Max Fleiuss

Saúdo-o e desejo-lhe felicidades.

Não tendo tido o prazer de o encontrar outra vez, antes de partir para aqui ─ renovo por meio desta o pedido que aí lhe fiz para enviar-me os documentos que puder dispensar relativos ao nosso saudoso Valentim Magalhães.

Terei com eles os cuidados que se têm com as verdadeiras relíquias; pode confiar-mos certo da restituição, que farei pessoalmente, quando aí estiver em novembro, para tomar posse do meu lugar no Instituto.

Quanto a este último ponto, peço-lhe, igualmente, que me diga qual o dia da sessão em que se realizará aquele ato.

Sem mais, creia-me sempre com a maior consideração ─ amo. obrdo. ato. admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 18 de outubro de 1903

Amigo dr. José Veríssimo

Saúdo-o e a toda a Exma. família. ─ Tem esta por fim solicitar-lhe dois grandes favores: 1º endereçar a inclusa carta para o dr. Joaquim Nabuco, porque não sei que destino lhe devo dar com segurança. Tracei-a à carreira, num intervalo desta minha vida trabalhosa. Subordino-a à sua censura. O 2º favor consistirá em aceitar um desgracioso presente: o rosto do caboclo que aí vai. Para isto não considere as suas linhas desengraçadas; considere a minha boa intenção.

E creia sempre na admiração e estima de quem é, muito cordialmente,

Euclides da Cunha

Lorena, 18 de outubro de 1903

Meu venerando compatriota J. Nabuco, dando a preferência de seu sufrágio ao almirante Jaceguay, e implicando-a com tanta superioridade, o sr. deu à carta, com que me distinguiu, um raro traço de nobreza, sobredoirando o valiosíssimo autógrafo que guardarei carinhosamente entre as melhores relíquias, que possuo. De pleníssimo acordo com o seu pensar, e agradecendo-lhe muito, o tê-lo exposto sem rodeios, (porque me fez justiça de acreditar que de modo algum eu me poderia sentir abatido, no plano secundário que naturalmente ocupo ante aquele notável compatriota) posso afirmar-lhe que não aventurara a minha candidatura se a tivesse de opor à do autor do Dever do Momento, livro a que devemos em parte a felicidade de vermos restituído à atividade política aquele cuja Formação reflete incisivamente, sintetizado numa existência individual, a própria formação do que há de mais brilhante, de mais sério e de mais robusto na nossa consciência coletiva atual.

Não vai a mínima lisonja nestas linhas. Todos os de minha geração devemos muito à sua palavra, porque a ouvimos precisamente na quadra em que sua tonalidade prodigiosa se harmonizou admiravelmente a todos os grandes arrojos e desinteresses da mocidade.

Ela ― que por uma circunstância notável tantas vezes se alevantou em frente a Escola Politécnica ― dominava, não raro a dos nossos mestres e ampliou o nosso destino subalterno de engenheiros, dando-lhe um significado superior tão bem expresso naquele “triangulador do futuro”, a que se refere imaginativamente, golpeando de súbitos lances de gênio a secura matemática da aula de Construção, o bom e genial André Rebouças.

Não me demorarei neste assunto, para não me delongar. Basta-me assegurar-lhe que nenhum de nós, rapazes daquele tempo, traiu aquela admiração antiga para que o sr. aquilate bem a verdadeira ufania com que recebi as suas letras.

Quanto aos Sertões ― aguardo tranquilo o resultado de sua leitura. Os deslizes na forma que o inquinam (o José Veríssimo inflexivelmente os denunciou) empalidecerão na escala de sinceridade com que esboço as suas páginas. Aí está o seu único valor, mas este é desmesura. Releve-me esta verdade, o Dante, para zurzir os desmandos de Florença idealizou o inferno; eu, não, para bater de frente alguns vícios do no singular momento histórico, copiei, copiei apenas, incorruptivelmente um dos seus aspectos… e não tive um Virgílio a amparar-me ante o furor dos condenados!

Não lhe devo tomar mais seu tempo que nesta ocasião pertence todo à nossa terra. Termino assegurando-lhe o meu maior apreço, a certeza e crescente admiração como comp. ato. e amo.

Euclides da Cunha

Lorena, 22 de outubro de 1903

Max Fleiuss

Diante do que me expôs com tanta franqueza na sua carta de 18, renuncio ao desejo de conhecer os documentos que aí tem sobre V. Magalhães.

Tratarei apenas do escritor. Em todo o caso agradeço muito a boa vontade com que acolheu meu pedido.

Nesta data envio ao dr. Marques Pinheiro a importância da jóia e mesalidade. Enderecei para o Instituto.

Quanto à posse também penso que será a 6; e havendo algum contratempo, a 20.

Cuide de preveni-lo com dois dias de antecedência.

Até breve, pois, e disponha sempre de quem é com muita consideração amo. obrdo. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 26 de outubro de 1903

[Anverso de cartão postal:]

São Paulo ─ Figueira Brava (Lorena) [Foto]

[Reverso:]

Dr. Lúcio de Mendonça

Travessa do Marquês do Paraná, 6 ─ Rio de Janeiro

Esta figueira é minha vizinha aqui, em Lorena. Não é admirável?

Pelo menos, um esplêndido pretexto para que lhe mande minhas saudades e cumprimentos, ─ quem é, cordialmente,

Lorena, 26 de outubro de 1903

Euclides da Cunha

Lorena, 2 de novembro de 1903

Escobar

Recebi a tua carta, a respondo logo — 5 minutos antes de partir para S. Paulo.

Não vou também ao Rio — mas às cabeceiras do Tietê, num serviço urgente. Tomarei posse no dia 20 deste.

Até breve.

Abraça-te o amo.
Euclides

Diga ao Valdomiro que breve responderei a última carta dele; logo que me desembaraçar da enormidade de trabalhos que aqui estão, esmagando-me.

Lorena, 16 de novembro de 1903

Coelho Neto

Venho das cabeceiras do Tietê, depois de longa e penosa viagem, e contava encontrar, ao chegar, notícias tuas. Nem uma carta, porém. Por quê? Esta é a segunda ou terceira interrogativa que te faço profundamente surpreendido. Mas como, felizmente, estas coisas não têm força para a minha sólida estima, renovo-a sem mágoa, e já que não me dás notícias tuas, dou-tas minhas.

Graças à minha rigidez nativa de caboclo, continuo bem nos steeple-chases desta profissão errante; e neste momento, ao meu lado, três pequenos titãs de um côvado de alto — toda a minha prole — perturbam-me consideravelmente com as suas risadas triunfais, cheias de vida.

Em resumo, — tudo bem aqui. E lá? Vou propositadamente fazer ponto nesta pergunta, sem alongar esta, para não lhe desvirtuar o fim único de saber notícias tuas e dos teus.

Adeus. Dá um pouco mais de atenção ao teu

Euclides

Recomenda-nos muito à Exma. senhora.

Lorena, 17 de novembro de 1903

Max Fleiuss

Saúdo-o, desejando-lhe felicidades e comunico-lhe que no dia 20 próximo, se não ocorrer qualquer contratempo, aí estarei a fim de tomar posse do meu lugar no Instituto.

Sem mais, creia-me na maior consideração do seu amo. crdo. obro. e admor.

Euclides da Cunha

Lorena, 22 de novembro de 1903

Coelho Neto

Cheguei hoje do Rio onde tomei revolucionariamente posse de meu lugar no Instituto Histórico. Os jornais limitaram-se a transcrever a resposta do conselheiro Corrêa que pronunciou o seu 10008º discurso. Não transcreveram o meu; não podiam arquivá-lo tão a fundo, tão de frente, embora sob um aspecto geral, eu feri o presente abominável em que estamos. Sem vaidade ― tive, por alguns momentos, em tomo de mim, a simpatia tocante de alguns trêmulos velhinhos, e aqueles minutos irão consolar a minha vida inteira…

Depois conversaremos: em dezembro (em princípio) irei visitar meu velho, e passarei aí para te abraçar.

Então. eu não creio em Deus?! Quem te disse isto? Puseste-me na mesma roda dos singulares infelizes, que usam do ateísmo como usam de gravatas ― por chic, e para se darem ares de sábios… Não. Rezo, sem palavras, no meu grande panteísmo, na perpétua adoração das coisas; e na biha miserabilíssima e falha ciência sei, positivamente, que há alguma que eu não sei… Aí está neste bastardinho (e é a primeira vez, depois da aula primária, que o escrevo) a minha profissão de fé. Há de adivinhá-lo teu valente coração. Se existir o teu céu, meu brilhante amigo, ― para lá irei direitinho, num voo, um largo voo retilíneo desta alma aquilina e Unta ― com assombro de não sei quantos rezadores, cujas asinhas de bacurau servem para os voejos, na penumbra do Purgatório. E serás o meu companheiro de jornada, porque é na nossa superenervação, e é no nosso idealismo sem fadigas, e é na nossa perpétua ânsia do belo, que eu adivinho e sinto o que não sei. Singularíssimo ateu…

Mas não quero tomar-te mais tempo. Até breve. Recomendações e abraços do

Euclides

Lorena, 27 de novembro de 1903

Escobar

Somente hoje, ao voltar de uma penosa viagem (sempre uma penosa viagem!) posso responder a tua carta de 19 em que me dás notícia do teu novo filho, o João, que poderá ser tudo ― Tenório, Sem Terra, Huss, de Deus, Valjean, VI ou V, Batista ou Fernandes ― mas nunca Bocó, como pecaminosamente o disseste, caluniando-me, por antecipação erradíssima, o rapaz. Nunca!

E que a velhice (tão acelerada anda-me ela agora em que há tanto velho trêfego neste país!) me permita um dia vê-lo, copiando, nesta vida, a marcha diretíssima do pai.

Já leste no Jornal de 26 o meu discurso no Instituto. Discurso, não; um desabafo. Leste a lista dos que lá estavam: era o ― Brasil, o Brasil Velho e Bom.

Que felicidade, meu amigo!

Não te rias: tive os olhos empanados de lágrimas quando, finda a sessão, aquelas mãozinhas trêmulas e mirradas se agarraram, num agradecimento mudo, à minha mão nervosa… Tu não calculas como me senti bem, ali, no meio daquela gente, que não distribui empregos; e como avaliei bem o vigor desta minha belíssima alma sonhadora, tão desprendida das infinitas esquírolas e da poeirada de coisinhas interesseiras que deslumbram tanta gente.

Depois conversaremos.

No dia 3 seguirei para S. Paulo. Encontro-te lá? Em tal caso previna-me com antecedência.

Lembranças aos teus; e recebe um abraço (do qual darás a metade ao nosso João) do amo velho

Euclides da Cunha

P.S. ― Vai esta em dois pedaços porque escrevi precipitadamente em duas folhas diferentes.

S. Carlos do Pinhal, 9 de dezembro de 1903

Tio José

Recebi, do Rio, no dia da posse do Instituto, um telegrama seu de felicitações, e tão atrapalhado andei que nem o respondi. Peço-lhe desculpas… Sempre que lá vou procuro o Arnaldo ― sendo escusado dizer-lhe que é sempre o mesmo rapaz estudioso (até demais) e comportado como uma moça.

E.

Lorena, 26 de dezembro de 1903

[Cartão postal a Machado de Assis]

[Reverso:]

“onde o estudante e a serenata acordam
morenas filhas do país do Sul!”

Felicidades!

Euclides da Cunha