Que significa Os Sertões para o Brasil de hoje

Juan C. P. de Andrade

Os Sertões pertence àquele grupo de obras cujo número de edições é, nos tempos hodiernos, difícil de saber, pois são diversas. Apesar disso, o livro não foi escrito senão para um pequeno número de leitores. Os inúmeros termos técnicos, arcaísmos e o tom elevado, declamatório e épico tornam a obra quase inacessível. As edições didáticas, resumos e cronologias, contudo, permitem pelo menos a compreensão do enredo de A Luta (terceira parte de Os Sertões).

Euclides da Cunha ganhou notoriedade com Os Sertões. Depreendemos que conseguiu o que pretendia, mas por outras vias. A crítica aos militares e o estudo que dedicou ao fator étnico não causaram o impacto esperado pelo autor. A obra foi além do seu engajamento e indignação contemporânea e ainda hoje sobrevive pelas características “bárbaras” e “civilizadas” que nela se conciliam. O livro serve tanto ao povo (força do “estouro da boiada”) quanto ao douto (descrição do locus amoenus de Monte Santo). Tanto ao sem-terra quanto ao proprietário dos bens materiais e culturais, sempre disposto a acionar o poder público para coibir supostos abusos com violência e saber “não-científico” com escolarização bancária.

Os Sertões ainda é atual. Apesar de seu vocabulário e estilo, pode, deve e é, felizmente, lido pelo público. Mas, por um lado, o público iletrado brasileiro sempre apreciou mais as descrições pitorescas ou comoventes e períodos com pompa oratória, abundantes em Os Sertões e extinguidos apenas na Semana de 22, do que a linguagem, a história e os costumes do Brasil desconhecido. Por outro lado, o público sente o que os pesquisadores de curiosidades literárias não percebem: o silêncio que se segue após a leitura de Os Sertões.

Como citar
ANDRADE, Juan C. P. de. Que significa Os Sertões para o Brasil de hoje. EUCLIDESITE. Artigos. São Paulo, 2002. Disponível em: https://euclidesite.com.br/artigos. Acesso em; [data]. Publicado originalmente em resposta à seguinte enquete do site da Casa de Cultura Euclides da Cunha, de São José do Rio Pardo: Que significa Os Sertões para o Brasil atual?