A Amazônia n’Os Sertões

Luís Fernando Ribeiro Almeida
Professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura pela Universidade da Amazônia (UNAMA). Pesquisador euclidiano. Autor de Entre margens: Euclides da Cunha e a Amazônia (Albatroz, 2017).

Texto em homenagem aos 118 anos de publicação d’Os Sertões (1902)

Euclides da Cunha (1866-1909) teve a oportunidade de experimentar duas regiões do Brasil: o Nordeste e a Amazônia. Em decorrência dessas suas entradas de bandeirante, deixou textos representativos sobre esses dois complexos nacionais. É sabido que o autor esteve na região amazônica entre fins de dezembro de 1904 e dezembro de 1905, em decorrência de sua nomeação como chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus e, logo após essa sua experiência, escreveu importantes textos sobre as peculiaridades dessa vasta região, ensaios que compõem a primeira parte da obra À Margem da História (1909). Todavia, antes de sua passagem pela Amazônia, Euclides da Cunha fez referência a essa região em sua obra-prima Os Sertões.

Ao fazermos uma leitura mais atenta d’Os Sertões, percebemos que Euclides já fazia menção à paisagem e às características da região amazônica em seu livro vingador. Por tudo isso, é possível considerar que alguns pontos discutidos pelo escritor fluminense em seus ensaios amazônicos, reunidos na primeira parte de sua obra póstuma À Margem da História, já estavam, mesmo que de forma embrionária, presentes na tessitura de Os Sertões.Em um plano geral, há referência à região Norte, entendendo-se como a região amazônica, a partir do destaque dado a estados como o do Amazonas e do Pará nas três partes de Os Sertões: A Terra, O Homem e A Luta, com maior realce para as duas primeiras partes.Em uma breve análise, na parte A Terra, encontramos considerações sobre a própria formação do continente Americano, com destaque para o arranjo do rio Amazonas, que teria sua conformação a partir do período terciário. Notadamente, Euclides da Cunha recorre à leitura de textos de cientistas e de pesquisadores que passaram pela região amazônica, como é o caso de Frederick Hartt e Agassiz, mencionados nessa primeira parte, e que reforça a ideia de que o escritor fluminense dispunha de um considerado acervo. Aliás, as leituras de Hartt e Agassiz seriam aproveitadas por Euclides da Cunha quando de suas reflexões sobre o espaço amazônico, fato observável em seu ensaio Impressões Gerais.

Outro aspecto que fica em evidência é o uso do termo Hileia, em referência direta à região amazônica. O vocábulo hileia vem do grego hilaea, designando mata virgem e que fora tomado de empréstimo pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt para se referir à densa floresta equatorial que se estende por uma vasta área da América do Sul. Interessante perceber que Euclides, tempos depois, fez uso com frequência do termo em seus escritos amazônicos. Esses usos podem ser observados no início de Impressões Gerais e em seu prefácio a Inferno Verde, do amigo e escritor Alberto Rangel, bem como em cartas, a exemplo da endereçada ao amigo Coelho Neto, em março de 1905.

Avançando, chegamos à segunda parte d’Os Sertões, O Homem. Euclides da Cunha tece comentários sobre a dinâmica do clima, da flora e dos regimes de chuva no Pará fundamentado nos estudos de Henry Walter Bates (1825-1890), pois, nesse momento, o que o autor conhecia da Amazônia era por meio da leitura de obras de cientistas e viajantes que por lá passaram e deixaram importantes registros. Fica evidente que o escritor Euclides leu a obra The Naturalist on the River Amazons (Um naturalista no rio Amazonas), publicado em 1863 por Bates. No livro, o naturalista britânico dedica os três primeiros capítulos ao Pará, destacando, entre outros aspectos, as características da cidade de Belém, festas religiosas, plantas e cursos d’água. Curiosamente, tempos depois, no ensaio Um Clima caluniado, publicado pela primeira vez no Jornal do Comércio (RJ), em 20 de fevereiro de 1907 e depois reunido na primeira parte de À Margem da História, Euclides da Cunha retoma o debate sobre o clima amazônico.

Continuando, ainda em O Homem, encontramos referência à dinâmica dos rios na Amazônia. Em interessantes passagens, Euclides da Cunha percebe que os rios funcionariam como artistas, pois seriam responsáveis pelas peculiares transformações da paisagem amazônica. A atenção dada ao rio vai ser retomada, com mais detalhes, em seus textos produzidos após o seu regresso para o Rio de Janeiro, no início de 1906, em decorrência do encerramento de suas atividades como chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus.

Um aspecto que chama a atenção, ainda em O Homem, está contido na passagem “O homem bebe o leite da vida sugando os vastos túmidos das sifônias”. Segundo nota explicativa na versão crítica d’Os Sertões, de Leopoldo M. Bernucci (2018), o termo sifônias designa: “plantas do gênero das euforbiáceas (Siphonia spp.) – por exemplo, a seringueira (Hevea brasiliensis) – que produzem a borracha”. Tomando por base essa explicação, podemos considerar esse trecho como significativo em relação ao que, anos mais tarde, Euclides da Cunha vai tomar como temática em seus ensaios amazônicos: a inserção do sertanejo no espaço amazônico e sua “metamorfose” em seringueiro, no período conhecido como Ciclo da Borracha.

Em outras passagens, Euclides continua refletindo sobre o clima amazônico. Nesse sentido, merece destaque a organização textual do trecho em que o autor faz uso da progressão narrativa para descrever o arranjo do homem e da natureza na época da “friagem”. Em um trabalho comparativo, observamos que Euclides da Cunha usou o mesmo estilo quando da caracterização do período da Semana Santa, em Judas-Ahsverus, um dos textos da primeira parte de À Margem da História.

Por fim, em outras passagens de O Homem, observamos uma reflexão sobre os sertanistas, um dos nomes dos Bandeirantes, que saíram a desbravar o interior do Brasil no século XVII. Destacamos, ainda, passagem em que o autor faz menção ao processo de expansão territorial do Amazonas. Cabe destacar que Euclides da Cunha já havia discutido sobre o processo das “entradas” e “bandeiras” na região em seu artigo Fronteira Sul do Amazonas: questões de limites, comentário ao livro, do mesmo título, de Manuel Tapajós. Euclides da Cunha voltaria a discutir questões históricas do Amazonas no ensaio Impressões Gerais.

Já na última parte d’Os Sertões, A Luta, observamos referências às movimentações do exército brasileiro sobre Canudos, no caso específico, a convocação de tropas de outros estados, incluindo Amazonas e Pará. Interessante perceber que, em determinado trecho, Euclides da Cunha faz referência aos estados do Ceará, do Maranhão e do Pará por meio dos nomes dos integrantes de conflitos sociais ocorridos no Brasil durante a segunda metade do século XIX, como os calangros, os balaios e os cabanos, respectivamente. Sobre os cabanos, sabemos que foram assim chamados os integrantes que participaram da Cabanagem, revolta popular que ocorreu entre os anos de 1835 a 1840, na então província do Grão-Pará, com foco na cidade de Belém.

Enfim, após essas discussões, que buscaram, de certa maneira, aproximar o universo d’Os Sertões ao complexo ensaístico amazônico de Euclides da Cunha, observamos que o escritor fluminense tinha à disposição uma considerável bibliografia, que versava, entre outros temas, sobre o universo amazônico, e que muitas questões sobre a região, discutidas de forma “embrionária” em Os Sertões, foram produtivamente retomadas e até retificadas nos textos que compõem a primeira parte de À Margem da História.

Como citar
ALMEIDA, Luís Fernando Ribeiro. A Amazônia n’Os Sertões. Belém, Pará, 29 nov. 2020. In: EUCLIDESITE. Artigos. Disponível em: https://euclidesite.com.br/artigos. Acesso em: [data]. Reprodução permitida somente para fins educacionais e desde que citada a fonte.