artigo | Euclides da Cunha no discurso de Getúlio Vargas

Luís Fernando Ribeiro Almeida
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura (PPGCLC), da Universidade da Amazônia (UNAMA). Desde 2009, pesquisador da vida e da obra do escritor fluminense Euclides da Cunha (1866-1909).

Como citar
ALMEIDA, Luís Fernando Ribeiro. Euclides da Cunha no discurso de Getúlio Vargas: revisitando páginas d’Os Sertões. In: Euclides da Cunha site. Artigos. Disponível em: http://euclidesite.com.br/artigos. Acesso em: [data].
Reprodução permitida para fins educacionais e desde que citada a fonte.

Getúlio Vargas (1882-1954) fez dos seus discursos uma marca propagandista do seu governo, alargando-se até as mais remotas partes do território nacional. Nos primeiros anos da década de 1930, enquanto chefe do “Governo Provisório”, visitou alguns estados do nordeste brasileiro, que, na ocasião, atravessava por um período considerável de seca. No dia 8 de setembro de 1933, em João Pessoa, capital da Paraíba, ao reportar-se às intempéries da região, fizera menção à literatura nacional, lembrando que esta, ao narrar o drama vivido pelos sertanejos, reforçava dois pontos importantes: a esperança e a retirada.

O primeiro, de certa maneira, ressalta o caráter otimista do sertanejo, tendo na fé o conforto, e a expectativa da chuva redentora, como bem destacado nas ações de Dona Inácia, personagem de “O Quinze” (1930), livro de estreia da cearense Rachel de Queiroz (1910-2003); porém, vendo-se sem condições de continuar, o mesmo sertanejo é obrigado a retirar-se da sua terra, seguindo para o litoral, como o Severino de João Cabral de Mello Neto, encontrando alguns “irmãos das almas” a carregarem outro retirante, ou debanda para outras paragens do imenso país. Interessante que no discurso, Getúlio Vargas cita a obra “A Bagaceira” (1928), romance do paraibano e então seu ministro, José Américo de Almeida (1887-1980), como um exemplo desse tipo de narrativa.

Getúlio Vargas, na capital paraibana, ao lado do ministro José Américo. Revista Fon-Fon, Ano XXVII, nº 38, 23 set. 1933, p. 41

Reforçando a necessidade da adoção de medidas que ajudassem a amenizar as dificuldades ocasionadas pelas constantes secas na região, e lembrando que naquela altura os avanços das modernas técnicas da engenharia viriam a contribuir, menciona a construção de obras de canalização; barragens; sistemas de irrigação, bem como a construção de açudes, porém, buscou reforçar que, naquelas alturas, a principal dificuldade a enfrentar estaria no financiamento dos respectivos trabalhos. Findando suas considerações, recorreu às palavras de Euclides da Cunha (1866-1909), enfatizando: “[…] não devemos jamais esquecer o conceito contundente de Euclides da Cunha, afirmando termos com o Nordeste uma dívida de quatrocentos anos, até hoje não resgatada.”

As palavras de Getúlio Vargas fazem alusão direta às considerações do escritor fluminense contidas no capítulo I, de “A Terra”, bem como no capítulo V, de “O Homem”, de “Os Sertões” (1902), onde o escritor reforça a ideia de que enquanto o litoral recebia os “reflexos da vida civilizada”, o sertão jazia em uma penumbra secular.

Ao revisitar as páginas do “livro vingador”, Getúlio Vargas fez ressoar a importância que a obra ainda exercia no pensamento brasileiro – e exerce até hoje – uma vez que Euclides da Cunha soube capturar, com seu estilo peculiar, as contradições de um Brasil que, na época, início do século XX, abraçava os modismos europeus, em um “Vaudeville tropical”, como bem destaca o professor e pesquisador Márcio Souza.

Belém, 14/02/2018