artigo | Canudos (telegramas de uma expedição)

Felipe Pereira Rissato
Como citar
RISSATO, Felipe Pereira. Canudos (telegramas de uma expedição). In: ANDRADE, Juan C. P. de (org.). Euclides da Cunha site. Artigos. Disponível em http://euclidesite.wordpress.com. Acesso em [data].
Autorizada a reprodução para fins educacionais, desde que citada a fonte.

Mais de 100 anos após a guerra de Canudos, telegramas enviados pelo então correspondente d’O Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha, permaneciam “esquecidos” naquele jornal, mesmo com as várias edições que os publicaram em livro.

Como correspondente de guerra do jornal O Estado de S. Paulo, o então jornalista Euclides da Cunha enviou, de agosto a outubro de 1897, 31 artigos (distribuídos em 23 edições do jornal) intitulados “Canudos (Diário de uma expedição)”, e nada menos que 64 telegramas.

Um destes telegramas foi publicado indiretamente pelo jornal, que apenas comentou o que o seu “correspondente especial” havia noticiado. Outro, foi apenas parcialmente publicado e, por fim, houve ainda mais um publicado em sua totalidade, a exemplo dos outros 61 como ele.

Entretanto, o que há de comum entre estes 3 telegramas é que: mesmo com as várias reuniões em livro, dos artigos e telegramas, eles jamais foram transcritos, permanecendo até o momento publicados apenas no jornal. Fato curioso é que, a cada lançamento dos artigos e telegramas reunidos, sempre havia alguma “novidade”, não existente nas edições anteriores.

Tudo começou com a Revista do Grêmio Euclydes da Cunha, publicação anual que em 1927 trazia reunidos apenas os artigos, sem os telegramas. Nesta revista não houve, porém, a publicação do artigo datado do dia 6 de setembro, publicado no jornal no dia 22 do mesmo mês.

Em livro, a primeira publicação, intitulada Canudos (Diário de uma expedição), organizada por Antonio Simões dos Reis e editada pela José Olympio em 1939, trazia 30 artigos, ainda faltando o do dia 06/09; outros 3 artigos, sendo dois deles publicados em março e julho, respectivamente, antes da viagem de Euclides à Bahia, ambos intitulados “A Nossa Vendéia” e o último publicado após o retorno do escritor, ainda em outubro, intitulado “O Batalhão de São Paulo”; e por fim trazia apenas 56 telegramas, sendo que dois deles, mesmo publicados na primeira página do jornal, na coluna intitulada “Canudos”, não possuíam a indicação de terem sido enviados pelo “correspondente especial”, como os outros. Estes dois telegramas datam de 10 e 24 de agosto, tendo sido publicados no jornal no dia subseqüente ao do seu envio. Com isso, conclui-se que esta edição estampou, efetivamente, apenas 54 telegramas de Euclides da Cunha.
Outro engano se refere aos primeiros telegramas enviados por Euclides. São três datados do dia 07 de agosto, publicados no livro como se fossem um só, o mesmo ocorrendo com os dois telegramas datados do dia 08. Já o telegrama do dia 11/08, enviado às 10:30 da noite, está grafado no livro como 07:30 da noite.

Em 1952, em comemoração ao cinqüentenário do livro Os Sertões, o jornal O Estado de S. Paulo voltou a publicar os artigos, o mesmo acontecendo em 1997, no centenário da guerra de Canudos, e em 2002, no centenário de Os Sertões.

Na Obra Completa de Euclides da Cunha, publicada pela Aguilar em 1966, há apenas a transcrição do texto do livro editado em 1939, com os mesmos enganos que, aliás, foram aumentados, sendo o telegrama de 29 de agosto grafado com a data do dia 30, e o telegrama com o plano de assalto à Canudos, grafado com a data de 1º de outubro, mas que foi efetivamente enviado em 14/10, sendo publicado no jornal no dia seguinte. A confusão talvez tenha se dado porque o plano, traçado no dia 30 de setembro, foi efetivamente executado no dia 1º de outubro.

Em 1967, sob o título Canudos e Inéditos, organizado por Olímpio de Sousa Andrade,
editado pela Melhoramentos, há a reunião apenas dos artigos, desta vez, felizmente, em sua totalidade, sendo incluído pela primeira vez o artigo de 06 de setembro. Nesta publicação, também pela primeira vez, há o questionamento sobre o artigo enviado de Canudos, publicado pelo O Estado de S. Paulo em 11/10 e datado de 10 de setembro. Julga-se ter havido algum engano quando da publicação do jornal, pois, segundo anotações do próprio escritor em sua caderneta de campo, teria ele chegado à Canudos apenas no dia 16, às 2:00 da tarde. Olímpio de Sousa Andrade, até este momento, acreditava que o artigo fora escrito em 12 de setembro, quando Euclides teria seguido de Monte Santo, de onde enviou um artigo no dia 11, para Canudos, juntamente com a 2ª Brigada da Divisão Auxiliar. Porém, segundo as anotações do escritor, a ida para Canudos, juntamente com esta Brigada, teria se dado somente no dia 13.

Quando da publicação da Caderneta de Campo de Euclides da Cunha, em 1975, Olímpio de Sousa Andrade, através das suas anotações, apontava que o envio deste artigo estaria datado entre 12 e 17 de setembro.

Aliás, a Obra Completa estampa, sem explicação alguma, este artigo do dia 10 de
setembro, como sendo datado do dia 12. O livro Canudos (Diário de uma expedição), por sua vez, mantém a mesma data do jornal (10/09) e o envio como sendo de Canudos, mas apenas no interior do livro, pois no índice o envio está identificado como oriundo de Monte Santo.

No decorrer deste artigo, após narrar a chegada a Canudos, Euclides cita ter percorrido o
campo de batalha com seu colega Gustavo Guabiru. Efetivamente, também em sua caderneta, após descrever a chegada a Canudos no dia 16, o escritor diz ter encontrado antigos colegas, entre eles, Guabiru. Nas anotações do dia 17, Euclides escreve que almoçou com Guabiru e cita, ao final da nota, ter escrito para São Paulo. Porém, não há no jornal nenhum artigo ou telegrama com esta data, o que, segundo estes apontamentos, nos dá a nítida conclusão de que o artigo enviado de Canudos, publicado com a data de 10 de setembro, seria este que o escritor diz ter enviado para São Paulo, datado efetivamente do dia 17/09.

Em 1972, Walnice Nogueira Galvão reúne os artigos numa espécie de suplemento literário, intitulado “Jornalivro”, editado em São Paulo.

O livro Canudos e Inéditos foi reeditado outras quatro vezes, a 1ª e a 2ª em 1993, a 3ª
em 1994 e a 4ª no ano 2000; sem alteração no que se refere ao texto, mas trazendo agora um novo título: Canudos e Outros Temas.

Por fim, em 2000, novamente Walnice Nogueira Galvão republica o livro Canudos (Diário
de uma expedição), através da Companhia das Letras, desta vez publicando outros 7 telegramas do “correspondente especial” que não figuraram nos livros anteriores, estando ainda, há época, “esquecidos” nas edições d’O Estado de S. Paulo.

A pesquisadora, na Nota Editorial, ainda destaca que os telegramas publicados provêm da coluna “Canudos”, da primeira página do jornal, embora haja alguns (os 7 novos) que foram estampados na coluna “Telegramas”, no interior do jornal, todos eles com a indicação de terem sido enviados pelo “correspondente especial”, pois, além de Euclides, havia o correspondente habitual d’O Estado de S. Paulo, na Bahia. Estes sete telegramas, talvez por estarem numa coluna genérica, passaram despercebidos pelos outros pesquisadores.

Sobre o correspondente habitual do jornal, este publicou, sobre Canudos, durante a
estadia de Euclides na Bahia, um total de 22 telegramas, 20 deles na coluna “Telegramas”, e apenas 2 na coluna “Canudos”, da primeira página, o que os fez terem sido incluídos na 1ª edição do livro Canudos (Diário de uma expedição) de 1939, mas excluídos dessa edição de 2000.

Walnice Nogueira Galvão também executou o excelente trabalho de detalhar a data e o
local de onde cada artigo ou telegrama foi enviado, indicando ao lado a data de sua publicação no jornal.

Na mesma nota, Walnice explica que a ordem de publicação do jornal não respeita a
ordem da escrita, sendo algumas reportagens (artigos) mais recentes, publicadas antes de outras mais antigas, havendo, ainda, a publicação, num mesmo dia, de artigos provenientes de diferentes datas e/ou locais. Tomando por exemplo, o primeiro artigo escrito por Euclides, com a data de 7 de agosto, foi apenas o terceiro a ser publicado pelo jornal, na edição do dia 23 de agosto. O primeiro artigo a ser publicado (na verdade o segundo enviado pelo escritor), datado do dia 10, apareceu na edição do dia 18. O quinto artigo enviado, com a data do dia 15, foi publicado um dia antes do primeiro, no dia 22. Já o terceiro e quarto artigos, datados de 12 e 13 de agosto, foram publicados em 24 e 25 de agosto respectivamente. A inversão de artigos ocorre mais uma vez com o 11º e 12º artigos, datados de 31/08 e 01/09, mas publicados em 12 e 09 de setembro, respectivamente. Felizmente, o mesmo não ocorre com os telegramas, publicados em no máximo dois dias após o seu envio.

O Estado de S. Paulo também errou na datação dos artigos de 10, 12, 18 e 19 de agosto,
grafando-os como tendo sido escritos em julho como, aliás, bem observou Walnice. A propósito, Euclides só viajou para a Bahia no dia 3 de agosto, lá chegando no dia 7.
Ainda sobre a publicação dos artigos, o próprio jornal, na edição em que traz o primeiro
artigo publicado (o segundo enviado por Euclides), reclama, na coluna “Notas e Informações”, o seguinte:

Publicamos hoje a segunda correspondência que da Bahia nos enviou o nosso correspondente, dr. Euclydes da Cunha. Não recebemos a primeira! Reclamaríamos com o correio se já não estivéssemos cansados de reclamar em vão.

No jornal do dia 22 de agosto, quando foi publicado o segundo artigo da série na coluna
“Notas e Informações” se lê o seguinte:

Publicamos hoje mais uma carta da Bahia do dr. Euclides Cunha. Em carta particular diz-nos ele que já enviou cinco. Só recebemos três. Não sabemos se esta, que hoje sai, é a terceira, a quarta ou a quinta.

Na verdade, era o quinto artigo enviado, com a data do dia 15. Entretanto, o jornal reclama até certo ponto sem razão pois, já tendo recebido 3 cartas, por que estaria publicando ainda apenas o segundo artigo da série? Isso nos leva a crer que a primeira carta do escritor, datada do dia 7, e publicada apenas no dia 23, no terceiro artigo da série, já estaria em poder do jornal, que poderia tê-la estampado em segundo lugar, ou seja, antes da do dia 15. Na edição do dia 23, nas “Notas e Informações”, o jornal assim se expressa:
“Publicamos hoje a primeira carta do nosso correspondente especial na Bahia dr. Euclydes da Cunha. Foi escrita ainda a bordo do vapor Espírito Santo, mas só chegou a esta redação depois das da Bahia, já publicadas”. Porém, como se vê pela nota do dia anterior, o jornal já possuía 3 cartas, quando publicou a do dia 15, julgando ser ela a terceira, a quarta ou a quinta enviada.

Certamente, como efetivamente era a quinta, dentre as três que o jornal já possuía, ela era a mais recente, ou seja, tendo sido a carta do dia 10 publicada no dia 18, a outra carta possuía data anterior a do dia 15, podendo ser a datada do dia 07, do dia 12 ou do dia 13, deixando o jornal de publicar esta mais antiga por pura falha. O jornal ainda voltaria a reclamar do correio na edição de 03/09, quando publicou o artigo datado de 23/08.
Algo curioso ocorre com os telegramas enviados quando Euclides da Cunha já estava em
Canudos, ou seja, posteriores ao dia 16/09, mas todos grafados como enviados ainda de Monte Santo. O jornal do dia 24 assim publica:

Do nosso correspondente especial junto das forças em operação no sertão da Bahia recebemos os importantes telegramas que abaixo publicamos. Da leitura desses telegramas depreende-se que foram enviados depois do nosso correspondente ter estado no acampamento das forças que sitiam Canudos.

No dia seguinte, o jornal noticiava:

Recebemos do nosso correspondente especial o telegrama que abaixo publicamos e que nos foi enviado de Canudos. Desta localidade foi o telegrama levado por um próprio a Monte Santo e desta estação nos foi transmitido.

Na edição de 26/09, porém, saía a seguinte nota: “O nosso correspondente especial chegou ontem a Monte Santo, de volta de Canudos, e daquela estação enviou-nos os seguintes telegramas”. E assim nos dias seguintes.

Entretanto, o último artigo de Euclides foi escrito ainda em Canudos, no dia 1º de outubro,
ou seja, Euclides ainda não havia voltado a Monte Santo, para onde partiu somente em 3 de outubro. O Estado de S. Paulo se corrige, na edição de 16/10, escrevendo nas “Notas e Informações”:

Os telegramas sobre a campanha de Canudos, que publicamos como dirigidos de Monte Santo, foram-nos enviados de Canudos, onde sempre esteve, até o assalto, o dr. Euclydes da Cunha, nosso ilustrado correspondente especial. Os telegramas eram enviados de Canudos a Monte Santo, última estação telegráfica, por próprios; daí a origem do fato de datarmos os telegramas de Monte Santo.

Em 2003 foi editado o livro Euclides da Cunha: Esboço Biográfico, do professor e
jornalista Roberto Ventura, falecido em 2002, e que infelizmente ficou incompleto. No livro, o professor destacou que, como correspondente, Euclides publicou 32 artigos entre agosto e outubro de 1897, somando os 31 artigos enviados da Bahia, com o artigo “O Batalhão de São Paulo”, publicado ainda em outubro, mas posterior ao retorno do escritor. No caso dos telegramas, Roberto dizia ter Euclides enviado 57, sendo três deles dirigidos ao então presidente do estado de São Paulo, Campos Salles, destacando que o último a ele dirigido, datado de 12/10, não havia ainda sido publicado em livro. Porém, o professor só inclui na contagem, além deste telegrama, os mesmos 56 telegramas publicados na 1ª edição de Canudos (Diário de uma expedição), ignorando, assim, os 7 telegramas publicados na outra seção do jornal e editados no ano 2000 por Walnice Nogueira Galvão, e ainda mantendo na contagem os 2 telegramas do correspondente habitual do jornal, publicados naquela 1ª edição.

Com efeito, somando os 54 telegramas enviados pelo correspondente especial na coluna
“Canudos”, da primeira página, com os outros 7, também do correspondente especial, mas publicados na coluna “Telegramas”, chegamos a 61, restando, para completar o total de 64, apenas 3, que até hoje estavam “esquecidos” no jornal.

O último destes 3 telegramas foi, como explicado anteriormente, apenas comentado no
jornal, que assim o descreveu nas “Notas e Informações” do dia 14/10: “Recebemos ontem um telegrama que nos foi dirigido da Bahia, pelo dr. Euclydes da Cunha, comunicando-nos que o 1º batalhão da força pública deste estado devia ter chegado ontem a Queimadas”.

O telegrama que foi dirigido a Campos Salles, datado de 12/10, deve-se a Roberto Ventura tê-lo encontrado, apesar de não tê-lo publicado, o que motivou esta pesquisa, com a finalidade de transcrever este telegrama que, infelizmente, o jornal não publicou na íntegra, e que felizmente propiciou a descoberta dos outros 2 telegramas que como este também estavam “esquecidos”.

Nas “Notas e Informações” do dia 13/10, O Estado de S. Paulo dizia: “O dr. Euclydes da Cunha, que fez parte do estado-maior do sr. ministro da guerra durante as operações do exército na Bahia, de Serrinha, onde se acha em regresso para esta capital, dirigiu ao sr. presidente do Estado um telegrama do qual extraímos o seguinte trecho:

O batalhão paulista, que tomou parte no notável assalto de Canudos, sustentando corretamente a importante posição do flanco esquerdo, aquém do Vasa-Barris, voltará breve, devendo substituir o fardamento em Monte Santo.

Finalmente, o primeiro destes telegramas “esquecidos”, sequer mencionado em nenhuma outra publicação, estava “escondido” na seção “Telegramas” a exemplo dos outros 7, encontrados há cerca de 6 anos e publicados na edição de Canudos (Diário de uma expedição) do ano 2000.

Este telegrama, publicado n’O Estado de S. Paulo em 26 de agosto de 1897, foi assim
estampado:

“BAHIA, 25 (1h. 30m. m.)
A situação é a mesma.
— Chegaram hoje do sertão mais setenta feridos, que, como os anteriores, vêm num estado lastimável.
(Do nosso correspondente especial).”

Com isso, a exemplo de em 2005 o pesquisador Joel Bicalho Tostes ter encontrado 3
artigos de Euclides da Cunha, datados de 1890, também nunca sequer mencionados e
“esquecidos” no jornal Democracia, do Rio de Janeiro; e das sucessivas edições, sempre
incompletas, dos artigos e telegramas enviados pelo escritor como correspondente da guerra de Canudos; que nunca se poderá afirmar ter se encontrado e publicado tudo o que Euclides da Cunha produzira, pois sempre haverá algo novo. No dizer do sr. Joel, Euclides é “inesgotável”…